quinta-feira, 26 de julho de 2007

O Café Aroeira... III

ELE
O empregado do Café da Aroeira, ao reconhecer quem entra, diz:
- Bom dia, sr. Carteiro.
A desilusão encheu todo o meu corpo, todo o meu espaço. Esperava outra notícia, outro mensageiro. Tentando disfarçar o meu desalento arrisquei:
- Ultimamente só distribui facturas e publicidade, senhor carteiro.
- Só tenho dois clientes, e esses recebem mensagens, recados., enfim verdadeiras cartas.
- As cartas de amor são ridículas, diz Pessoa.
- Por falar de poesia... sou o carteiro de Neruda.

“Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.”
(Pablo Neruda)

- Dois clientes? Mas no filme só havia um...
- Há também uma cliente. Quer que envie para ela alguma mensagem?

“Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída”
(Pablo Neruda)

- Uma mensagem, um pedido, um desejo ou um convite? Um jantar íntimo regado com conversas tranquilas.
- Não esquecerei de transmitir. Agora tenho que ir. O meu giro ainda está a meio. Bom dia.

Pedi um café. Reparei na inscrição do pacote de açúcar: “saborear é a melhor coisa do mundo”.
Cada vez gosto mais do Café da Aroeira.

Certeza que há “mais vida para além do Café da Aroeira”.
Fazes bem em saborear: mais prazer, saudade, bem estar e tranquilidade... pensar, e viver, o teu futuro, claro!

Regressei a Lisboa e meti-me num avião.
Esta noite vou dormir num quarto “sobre o mar”.
É o meu desejo! E devemos LUTAR para que os desejos se transformem em realidades...

Já no avião estive atento ao pacote do açúcar. Tentei descobrir qualquer mensagem, qualquer sinal.
Desilusão: somente leio... “Sinagra o açúcar dos Açores”.
Não posso acreditar... uma fábrica! Nem Açores é o meu destino...
Mais uma vez, não desisti. Pesquisei no Google - Sinagra é, também (principalmente?) uma localidade em Cecília (outra ilha).
Ilha cheia de vida, com vulcões, muita cor e... com “cheiro” a África.
“Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa –
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. –
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.
Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.”
(Herberto Helder)

Já estou no quarto sobre o mar. O meu desejo foi transformado em realidade...
Neste espaço nesta ilha descubro muitas flores: estrelícias, antúrios, orquídeas, sapatinhos, hortenses - a flor do teu post de 19JUL (aqui chamada de “novelos”).

No hotel não me encheram o quarto de flores, o sofá é azul, não descubro a manta, o chá não é de princesa, não há gestos, mas o que verdadeiramente sinto falta são de... conversas tranquilas.
Resta-me a companhia do silêncio e da música do mar em perfeita sintonia.

Esta noite deixarei a janela aberta.
ELE (sempre)
Poderia ser o Rick´s Café (Casablanca). Neste caso sem Bogart nem Ingrid Bergman nem ninguém! O café estava vazio.
- Play it again, Sam.
Silêncio em toda a sala. Como tudo se transforma. Que se terá passado? Terá uma simples viagem alterado tudo?
- Bom dia!
Uma voz vinda do nada?
Era o carteiro! Reconheceu-me.
- Não consegui transmitir a sua mensagem... Temos um “Processo” complicado.
- “Processo”? Tal como no livro do Kafka? Mas esse foi em Praga e não aqui na Aroeira (Casablanca?)
- Kafka também escreveu uma carta. No caso dele, dirigida ao pai...
- Os carteiros entram em muitas histórias..

“Em cada tarde desta vida que escolhi
Deste tempo feito aqui
Ao momento que estremece
É um carteiro que como um barco em viagem
Se não tem voz de paragem
Navegou, desaparece.
Chegam palavras chegam recados
Chegam saudades que enternecem
Chegam palavras chegam recados
Chegam amigos que não esquecem
Dentro das cartas com as palavras”
(Fernando Tordo)

- Hoje em dia tudo é em “correio azul” – replica o carteiro...

“Manda-me uma carta em Correio Azul
P´ra afastar essas cinco nuvens negras
Relembra-me as regras
Do saber viver
Repõe-me o sentido nos sentidos
Olfactos,
Ouvidos
À vista
De tactos
Do teu paladar.”
(Sérgio Godinho)

3 comentários:

pairando... disse...

Em silêncio, discretamente,passei, olhei,e saio...xiu!!!

Teka disse...

Teka pega na mão de Pairando e puxa-o/a para dentro.

Entra, senta-te... bebe mais um copo...

pairando disse...

...não, não entro, pois pairar é pairar, não participar, ser invasivo,mas agradeço o seu gesto tão gentil, amável, sincero.
Seria já muita gente...e eu não quero engordar muito,pelo contrário.
MAS MUITO OBRIGADO e, como diziz o outro, vou andar por aí!