segunda-feira, 16 de julho de 2007

O Café Aroeira...

ELE

"Mesmo ao lado da tua mesa saboreio um livro (Montalbán?). A vossa conversa fez-me interromper momentaneamente a leitura. O que era uma privada e ternurenta troca de impressões entre cúmplices de um percurso transformou-se num espaço público.
Mantive-me discreto e silencioso. Bastava-me ter uma visão antropológica das pessoas, dos gestos, das formas, dos movimentos.
Quem seriam? Que fariam? Como pensam? Que percursos?
A minha curiosidade (sempre) acentuou-se quando reparei que tu respondias a todos, a qualquer pessoa (anónimo ou não) mesmo que não estivesse na vossa “mesa”.
Respondias “olhos nos olhos” afirmando: “Este comentário é mesmo para ti. Regressa sempre”
Como ficar indiferente aos teus “olhos”?”

ELA

(no prelo)

ELE

Concentrado na leitura da viagem de Carvalho, o “detective do Moltalbán" em Cabul, fui interrompido:
- Estamos "no prelo"
- "No prelo"? - perguntei intrigado.
- "No prelo" significa "em fase de conclusão"...
- O "Café da Aroeira" não está aberto 24 horas por dia?

"Café no prelo"?, “Apontamento no prelo"? ou será... "Sentidos no prelo"?
Resolvi não investigar, fico a saborear a dúvida...
Deverei escrever?

“Escrever é procurar corresponder
ainda que não se saiba a quê ou se esse quê existe
A nossa liberdade nasce de uma incerteza radical
E a sua metamorfose é a invenção de um espaço
De correspondências que visam uma atmosfera inviolável

Nunca saberemos mas precisamos de desenhar a forma de um caminho
Que vai até ao extremo do silêncio e reflui para o espaço
Das nossas vidas sonâmbulas e incertas
E que nos abre o peito para uma respiração de estrelas vivas
Embora continuemos a deambular no deserto (...)”
(António Ramos Rosa)

- O "Café da Aroeira" não está aberto 24 horas por dia?
- ...
Provavelmente tudo era ”uma invenção de um espaço”
Regressei à leitura do livro.

ELA
De novo no mesmo café de sempre, na mesma mesa, servida pelo mesmo empregado. A debater o mesmo assunto em que invariavelmente sempre surge o impasse. Trocas cúmplices que mostram sentimentos delicados. Sinto-me mais uma vez a perder a batalha da discussão entre o passado e o presente. Olho à volta em busca de reforço para o meu próximo argumento.
Numa fracção de segundo os meus olhos encontram os teus.
Pego na chávena como que a ganhar tempo. A minha voz, ouço-a a sair: “não se parte quando não se quer chegar”, “Jamais se diz aquilo que fica por dizer”.
Sinto o teu olhar em mim, subtil, curioso, talvez surpreendido com as minhas palavras.
Desisto, ele levanta-se, não estamos zangados, o tempo que nos conhecemos e vivemos não permite rupturas. Despeço-me, apesar de tudo, com um sorriso carinhoso que ainda é código entre os dois.
Fico de novo sozinha, pego de novo na chávena, o café está frio.
Ouso olhar para ti de frente, como que para mudar de assunto, curiosa, pareces alto, cabelo cheio, feições finas, olhos expressivos, tranquilo, discreto, envolto na tua leitura. O teu livro, parece-me que li Montalbán, contrasta com o meu “A Inutilidade do Sofrimento” retirado à pressa de uma dessas prateleiras de auto-ajuda para aprender a atenuar a tristeza. Tens um copo à tua frente, pousas o livro e enquanto levas a mão ao copo, os nossos olhos tocam-se e demoram-se uns segundos que parecem minutos. Atrapalhada, sinto-me notada e surpreendida com o meu coração que bate mais rápido. Intuitivamente inclinamos milimetricamente a cabeça num breve aceno.
És um cavalheiro, desvias o olhar e, tranquilamente retomas a tua leitura. Sabes que não fiquei indiferente. Sinto-me aconchegada e fico pensativa: será que esta mesa não pode também ser a tua?

Ele
“Hesito perante este convite.
A revolução é mais saborosa que a democracia, a descoberta seduz mais que a ocupação... a conquista deve ser vivida.
O Gin Tónico ainda está longe do fim e o livro de Montalbán chama-me
“... esperava um discurso dissuasivo de Carvalho mas o detective limitou-se a arquear as sobrancelhas.
Você também duvida?
- Todos os dias.
- E como o ultrapassa?
- Deixando de duvidar.
- De quanto em quanto tempo?
- Todos os dias.
- Admirável essa tensão destruidora e simultaneamente construtiva.
- Talvez as mesmas dúvidas sejam menos abstractas ou transcendentes que as suas.
- Todas as dúvidas são abstractas e transcendentais porque Deus, que é certeza, nos colocou no cérebro a possibilidade da dúvida.
- “Duvida, meu filho, da tua própria dúvida”, disse Deus ao marquês de Marianao.
- Está a ver. Isso não sabia. E porquê ao marquês de Marianao?
- Sabe-se lá. Lembre-se da história exemplar de Santo Agostinho e do menino que tentava meter o mar num barquinho que tinha feito na areia da praia.
- Excelente exemplo! Vejo que é um bom polemista. Vamos passar uma viagem excelente...”
Olhei em volta no café. Estavam muito menos pessoas.
Bebi um novo gole de Gondon´s .”

ELA
Segui-te o exemplo, só que o meu livro não é tão interessante como parece ser o teu. “O pensamento é prévio à emoção, e esse pensamento é que nos faz sentir bem ou mal”, “não soframos inutilmente! Se controlarmos os nossos pensamentos, controlaremos a nossa vida!”. Sorri, fechei o livro, olhei para ti, continuavas embrenhado, sereno. E sem saber que lias sobre dúvidas, imaginei se esta poderia ser uma frase tua. Achei improvável, quem olha assim... quem toca assim com o olhar...
Reparei no empregado que se dirigia a ti.
Levantei-me, eram horas. Serpenteei por entre as mesas e passei colada à tua, sem me atrever a cruzar o meu olhar com o teu. De relance ouço-te “No prelo?” e saio em direcção ao meu carro.
Da Aroeira a Lisboa penso nas batalhas perdidas, nesse teu olhar inesperado, na tua voz, no efeito que teve em mim, no teu livro e nessa palavra intrigante. Prelo “em fase de conclusão”. Quis que o café da Aroeira estivesse aberto 24 h, quis que nunca acabasses de ler o teu livro...
De noite, como há muitos meses não acontecia, adormeci com um sorriso.
Será que este sentido pode ser apontado?
Prelo... talvez sejas escritor...

ELE
"Regressei à leitura do livro incomodado por não ter interrompido a conversa com o empregado quando senti o teu corpo passando colado à minha mesa.
Deveria ter-me levantado, dar-te as mãos, olhar nos teus olhos, e... que dizer?
Não sei!... provavelmente fiz bem em não ter feito nada.
Não é verdade!
“Não fazer nada” é “fazer algo”!
A ausência de uma decisão é uma decisão!
Há um enorme silêncio na sala.
Reparo que na tua mesa ficou esquecido um livro: “A inutilidade do Sofrimento”.
Não me seduz muito... a história da “formiga a transportar uma folha”... enfim, e o título? perfeitamente discutível!
“O sofrimento também faz crescer, o sofrimento também ajuda a descoberta”. Quem será esta María Jesús Álava Reyes? Terá alguma vez sofrido?
“Um guia prático com exercícios de autocontrolo, reflexões, pautas de comportamento e vários testemunhos que pretende levar as pessoas a questionarem-se e, pouco a pouco, a encontrarem as suas respostas”.
O meu lado perverso diria: parece um “Manual de procedimentos”... tipo: “Como utilizar uma máquina de lavar roupa”.
Continua o livro: “aproveitai o dia, porque o passado já era, e o futuro ainda não chegou”.
Como é possível afirmar “isto”... o futuro está aqui mesmo, estamos sempre a tropeçar nele, cada vez mais o futuro se aproxima do presente... o presente é volátil, simples passagem entre o que fica o que está sempre a chegar...
Saberei mesmo algo? Serei alguém?

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(...) Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!”
Álvaro de Campos

Regressei ao “meu” livro e lembrei-me de um dos gestos preferidos do “Carvalho, o detective de Montalbán”... queimar alguns livros.

Aqui faz falta uma lareira!"

1 comentário:

Estrelita disse...

A Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

Àlvaro de Campos