segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

"...Nos meus sentidos a imagem desta hora..."*


Hoje, curiosamente, apetecia-me reflectir sobre os jornais/notícias, numa vertente nada simpática: a do excesso de informação que retira muitas vezes a nossa espontaneidade nas conversas e nos temas que abordamos com as pessoas com quem vamos convivendo e partilhando o dia-a-dia. Trocamos mais informação do que partilhamos vivências e olhamos para os outros. Ficará para outras luas.

Inesperadamente sou surpreendida por 2 notícias num mesmo dia que me fazem reflectir no país em que nos estamos a tornar. Que me deixam desconfortável, que me podiam ter tocado à porta, que me impelem a escrevinhar estas considerações.
O melhor do nosso pior. A morte. A morte, por assassinato violento, por encomenda.
Um corpo de um homem cravejado de balas ao sair de sua casa, no Norte. Um corpo de um homem morto à facada encontrado num carro, abandonado numa praia nos arredores de Lisboa. Um segurança da noite e um director dos CTT. Hoje, porque infelizmente não foram os primeiros.
Também aqui já se pode matar por encomenda.
“Alípio Ribeiro disse apenas: "Vai parar. Tenho a certeza disso"” In Público.
E se ele se enganar nas suas certezas?

Neste nosso cantinho à beira mar plantado a Globalização bate à porta, não tão levemente assim, para nos mostrar as maravilhas de pertencermos a esta Aldeia Global. Só que infelizmente não há bela sem senão e uma das nossas características mais marcantes, “brandos costumes”, tem os dias contados.
Curiosamente hoje um dos títulos do Público era “Mortalidade infantil atinge valor mais baixo de sempre em Portugal”. Este é também o país onde, hoje, nos Olivais roubaram as meias doadas que seriam destinadas aos sem abrigo.
Estamos de parabéns?
Ou... Nem tanto assim?
* In "Hora" de Sophia de Mello-Breyner

1 comentário:

Estrelita disse...

Vale a pena deixar aqui esta "Hora"



Hora


Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta , por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.


Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera o peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.


Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias, Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.


Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.


Sophia de Mello-Breyner