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domingo, 25 de outubro de 2015

Porque não é só a hora que muda...

Às vezes entra-se em casa com o outono
preso por um fio,
dorme-se então melhor,
mesmo o silêncio acabou por se calar.


Talvez pela noite fora ouça cantar o galo,
e um rapazito suba as escadas
com um cravo
e notícias de minha mãe.



Nunca fui tão amargo, digo-lhe então,
nunca à minha sombra a luz
morreu tão jovem
e tão turva.



Parece que vai nevar.

© EUGéNIO DE ANDRADE 
Branco no Branco, 1984 

Tropecei no "Murcon" e as palavras do Eugénio fizeram-me sentido.
"Mudar" um verbo recorrente nos meus sonhos e pesadelos.

sábado, 16 de novembro de 2013

Conselhos de Pai...

AO TEMPO QUE PASSA!...

Nesta etapa da vida
o tempo acelerou,
mas não temas a idade,
nem dês largas à saudade
desse tempo que passou

Não corras atrás do tempo
que já deixaste passar
por vezes o tempo perdido
pode anda ser vivido
se o souberes aproveitar

Vive o tempo presente
Deixa-o vir devagar
devagar, devagarinho
fizeste meio caminho,
outro tanto há-de chegar

Do meu Pai para mim

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Mês 7...

Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.
Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.
O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.
Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.

Mia Couto
in "Tradutor de chuvas"

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Eugénio de Andrade...

Sê paciente; espera que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto ao passar
o vento que a mereça.
 

Eugénio de Andrade.
19 de Janeiro de 1923 - 13 de Junho de 2005

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Aí está o DIA 2...

Tão distante vai o tempo
em que o Tempo era lento,
levava tempo a passar,
em que este dia 2
andava a passo de boi,
tardava tanto a chegar


Mas os tempos já são outros,
para bem e para mal,
e toda a Vida mudou;
fazer anos nesta altura
até parece loucura
de quem em nada pensou


É Tempo de desfazer, começar a descontar;
deves pensar nisso bem
se te vais habituando,
o hábito vai ficando, tarda nada estás nos cem


AD
(do meu pai para a minha mãe, hoje)

domingo, 1 de maio de 2011

Ser Mãe...

Ser Mãe é dar Vida,
pôr um ser no mundo,
dar sem receber,
pronta a sofrer
em cada segundo

A ânsia de dar
não tem que ser dor
é missão cumprida,
por vezes sofrida,
ser Mãe é Amor

António Diniz
(escrito hoje pelo meu Pai para a minha Mãe)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Cansaço...

Estou CANSADA, sim acabo o ano cansada.
À minha amiga M devo a descoberta de mais uma pérola de Fernando Pessoa.

 
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos

domingo, 2 de maio de 2010

Porque MÃE há só uma...


Mãe palavra breve

enorme no seu sentido

com três letras apenas

Só mesmo não é pequeno

O Amor nela contido

António Diniz

domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia...

Através do traço a vida desenha-se
Dispersa
Confusa
Brilhante
Carregada de sombras e rotas

É um labirinto de sonhos atónitos e deslumbrados

O brilho do sol todo Deitado
Ofuscado no seu próprio calor

Carlos Céu e Silva
(livro no prelo, certamente)

Podia ter oferecido um dos meus poetas de eleição, mas aqui vai um poema de um querido amigo que escreve muito bem e que ao longo dos anos (21) vamos tocando no coração e nas sensibilidades um do outro.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Querida Luzinhas a afastar o dia de chuva...



Aceito o teu desafio "Poesia-Paper"!
"A criança em ruínas" de José Luís Peixoto
Vamos lá ver qual será o poema que eu vou gostar, especialmente!
Já percebi que a escolha não é fácil.
Como podem perceber aqui !

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Grato a S. Valentim

Ai Valentim Valentim!
De volta mais uma vez
Era tão bom que viesses
Mais vezes e que fizesses
Uma visita por mês.

Nem que seja de fugida
Vens de longe, bem sabemos
Vem dar-nos o teu encanto,
Já que para nós é tanto
E tanto agradecemos.

António Diniz

Embora este dia me diga muito pouco, fico emocionada com a forma como o meu pai ainda escreve à minha mãe, com os mimos que trocam e com os olhares cumplices e ternurentos com que se brindam um ao outro, ao fim de 47 anos de vida em comum.
Aos meus pais que também tiveram os seus dias menos perfeitos ao longo dos anos, mas que decidiram continuar sempre juntos.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natal à beira-rio...

É o braço de abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?
David Mourão-Ferreira

terça-feira, 13 de outubro de 2009

(Antó)nimo...

Porque há 50 anos Jorge de Sena, engenheiro, partiu para o exílio por causa da ditadura e nunca mais voltou.
E não só...
ENCONTRO
Tu vinhas pela rua
e, creio,
na intenção de não me ver.
Eu fiquei observando
o teu aproximar
e não pensava
e não dizia nada a mim mesmo.
Mas quando passaste ao meu alcance,
mas porquê?
Sem querer, chamei-te.
Para ti nada tem memória positiva
e falaste-me sorrindo
como se nada tivesse acontecido,
como se fosses tu quem me chamasse.
Os passos que demos lado a lado
chegaram a ser contentes
e mais leves...
Despedimo-nos,
de tácito e repentino acordo.
Não me lembrei de olhar
o teu vulto ao afastar-se...
E tudo o que arranjara
para te dizer,
quando um dia te encontrasse,
apesar de ter princípio, meio e fim,
não apareceu, não flutuou,
ficou dentro de mim,
ficou longe de mim,
e bem sei que agora nunca mais sairá.
27-28/10/1938
Jorge de Sena in Post-Scriptum II, 1985
Gentilmente cedido por http://www.ruialme.blogspot.com/

sábado, 19 de setembro de 2009

Para Ti, Luzinhas de Verão...

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não

Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis mas tu não
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
Porque tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.
(Sophia de Mello Breyner)
Porque tu és assim
Espontânea e verdadeira. Sempre!
Porque tu és a Luzinha Especial
Que ilumina todos os que privaram contigo esta noite com sentido.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Missiva

AS MÃOS

Margens derivam. Lisura
das mãos, não rígidas. Rectas.
Nem açude: a que submetas,
torrencial, a ternura.
Murmulho. Espuma: fervente
caudal! Paralelamente,
ternas, derivam. E as horas
nas palmas brancas esquivo.
Ah, mãos? Nunca agarradoras
do coração fugitivo.

Jorge Amorim

(de A Beleza e as Lágrimas, edição do Autor, 1957)

In http://ruialme.blogspot.com/

sábado, 21 de março de 2009

Chegou, finalmente...



ANUNCIAÇÃO

Surdo murmúrio do rio,
a deslizar, pausado, na planura.
Mensageiro moroso
dum recado comprido,
di-lo sem pressa ao alarmado ouvido
dos salgueirais:
a neve derreteu
nos píncaros da serra;
o gado berra
dentro dos currais,
a lembrar aos zagais
o fim do cativeiro;
anda no ar um perfumado cheiro
a terra revolvida;
o vento emudeceu;
o sol desceu;
a primavera vai chegar, florida.


Miguel Torga

domingo, 8 de março de 2009

Dizer Mulher...

Retrato de uma princesa desconhecida
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Dia dos Namorados...

Conta-mo outra vez
Conta-mo outra vez: é tão bonito que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o par do conto foi feliz atá à morte.
Que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer lhe ocorreu enganá-la.
E não te esqueças de que, apesar do tempo e dos problemas, continuaram beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes por favor: é a história mais bela que conheço.
Amália Bautista (1962)
O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade

sábado, 31 de janeiro de 2009

Como pintar um pássaro...

Pinte primeiro uma gaiola
com a porta aberta.
Em seguida pinte
alguma coisa graciosa,
alguma coisa simples, alguma coisa bonita,
alguma coisa útil...
ao pássaro.
Depois, coloque a tela contra uma árvore
no jardim,
no bosque
ou na floresta
e esconda-se
atrás da árvore
sem dizer nada, sem se mexer.
Às vezes o pássaro chega logo,
mas pode levar muitos, muitos anos
até se resolver.
Não desanime,
espere.
Espere, se preciso, durante anos.
A velocidade ou a lentidão da chegada
do pássaro, não tem a menor relação
com a qualidade da pintura.
Quando ele chegar
(se chegar)
mantenha o mais profundo silêncio,
espere que ele entre na gaiola.
Depois que entrar,
feche lentamente a porta com o pincel.
Aí então
apague uma por uma todas as varetas.
(Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena
do pássaro).
Finalmente pinte a árvore,
reservando o mais belo de seus ramos
ao pássaro.
Pinte também a verde folhagem e a doçura dovento,
a poeira do sol,
o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da
estação.
Depois aguarde que o pássaro se decida a
cantar.
Se ele não cantar,
mau sinal:
sinal de que o quadro não presta.
Mas bom sinal, se ele canta:
sinal de que você pode assinar o quadro.
Então retire suavemente
uma pena do pássaro
e escreva o seu nome a um canto do quadro.
Jacques Prévert
Tradução-Homenagem: Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ao Poeta...

Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

Nasceu a 19 de Janeiro de 1923