Sentir, Aprender, Registar... Escrever o que me vai na alma. E conversar Sempre... tranquilamente, com quem se gosta!
domingo, 9 de dezembro de 2007
Poema a uma certa senhora...
Há poemas e poemas,
Poetas e poetastros...
Ninguém quero enganar
em três tempos vou deixar
a Poesia de rastos
II
Mas não quero, mesmo assim,
deixar a data escapar
não sou poeta? É pena
pois gostava, num poema,
este dia festejar
III
Fazer vinte, ou trinta anos
não é nada de espantar,
mas é só para alguns apenas
fazer mais umas dezenas
e aos noventa chegar
IV
Dizia João de Deus
numa linda poesia,
fazer anos, mas que tolo,
é de gente sem miolo,
é burrice, é teimosia
V
Não é verdade afinal,
nem estava certo o João
pois não é qualquer pessoa,
nem é de maneira à toa
que se chega a noventão
VI
Esta vida é um caminho
bem difícil de trilhar
fazê-lo sem tropeções,
apesar dos encontrões,
é caso para festejar
VII
Certo é que preço tem
uma tão linda idade:
são as pernas, são as costas,
mas é assim que se mostra
toda a força de vontade
VIII
Devagar, devagarinho,
se Deus quiser há-de ser...
É o lema da Ofèlinha!
Toca a sua campainha
e tudo à mão lhe vai ter
IX
Passa o tempo a fazer planos,
danadinha para jogar:
Totoloto, Casa Cheia,
até o Buda chateia
p'ra sorte fazer virar
X
E já tem as contas feitas
para quando o prémio chegar
é para este, é para aquele,
ninguém vai ficar sem "ele"
toda a gente vai ganhar
XI
Se isto é um julgamento,
a sentença eu vou ler:
Já que está habituada,
é desde já condenada
a continuar a viver
XII
Aos jurados, um apelo,
certo que vão apoiar:
Estarmos todos reunidos,
alegres e divertidos,
quando aos cem anos chegar
(Do meu pai para a minha avó, no dia dos seus 90 anos)
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
Porque é muito bonito...
Somos as estrelas que cantam.
Cantamos com a nossa luz.
Somos os pássaros de fogo.
Voamos para lá do céu.
A nossa luz é uma voz.
Abrimos uma estrada para os espíritos
passarem.
Entre nós há três caçadores
caçando um urso.
Nunca houve tempo
em que não caçavam.
Não tememos as montanhas.
Este é o caminho das estrelas
"Algonquinos"
2001 poemas para o futuro, pp 161
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Escolhas...
DE PROFUNDIS...
foste sempre aquele que farejava a tempestade
antes das aves marinhas
o terror do descalabro mandava calar tua boca bem esculpida
teus olhos já sem brilho
nenhuma palavra tinhas que previsse o longo naufrágio
que já boiava em vagas de crista aliciante
gritaste aos sete ventos todas as palavras
para proclamar as tuas vidas
que apenas te conduziram à forma derradeira
mas os ventos eram contrários e nada traziam
para a baía azul onde eu
sentado
meditava
e foi assim que caminhaste o teu caminho
só
esquálido e sempre descontente
agora já é tarde, mas a pergunta fica:
porque não falaste a tempo?
porque não choraste em campo aberto?
porque não gritaste ao mundo sádico e áspero
tua angústia alucinante
tua profunda infelicidade?
agora há apenas mais um pouco de areia em marrocos...
(José Diniz)
In O Homem (1993). Ed Tertúlia. Lisboa. pp 79
sábado, 10 de novembro de 2007
Insónias...
Que horas são? É escuro. Quase as três.
Parece que não torno a fechar os olhos.
O pastor da aldeia faz estalar o chicote à alvorada.
O vento frio soprará na janela
que dá para o pátio.
E estou só.
Não é verdade. Com
toda a onda penetrante do teu
ser puro, tu estás comigo.
Boris Pasternak
(In Poetas Russos, tradução e prólogo de Manuel Seabra, Relógio d'Água, 1995)
http://ruialme.blogspot.com/
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Porque... Sim!
domingo, 21 de outubro de 2007
Sinto... aguardo... paciente... porque os carteiros chegam a todos os lugares do mundo...

“Se cada dia cai
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.”
(Pablo Neruda)
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
Tempos de mudanças...
E o Verão já vai longe...
O sol, o corpo quente e descoberto, a emoção de sentir mais intensamente, mais livre, mais à flor da pele...ficou retida num tempo...
O clima muda, o corpo esconde-se, as esplanadas esvaziam-se, a noite chega mais cedo, o tempo agora é outro... Convida à reflexão, à leitura no sofá, às conversas tranquilas em boa companhia...
E porque não ler e partilhar um dos mais belos sonetos do nosso Camões.
Lembrei-me agora de ti minha Sampa amiga, saudades de te ouvir ler quando as estrelas apareciam no céu, na minha sala e lembrei-me que foi assim, pela tua voz bem colocada, num tom sereno que me apresentaste Drummond de Andrade. Aqui vai para a troca... Como se estivesse a ler para ti...
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades
Continuamente vemos novidades
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e em mim converte em choro e doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía...

sábado, 29 de setembro de 2007
Lição de vida...
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis, 1916
domingo, 23 de setembro de 2007
Prazeres...
sábado, 4 de agosto de 2007
O NADA, ou o TUDO...
tanto faz!
pois num dado momento,
no exacto momento,
serão, sempre e só,
uma e a mesma coisa.
sendo ambos absolutos
TUDO! NADA!
Confluem
na unidade
e a unidade, como a palavra diz,
é una.
Logo, é indiferente se é tudo, ou...nada.
São a mesma coisa
vista de perspectivas,
momentos históricos ou humanos
diferentes.
Momento único...
Pequena composição poética, que exprime um pensamento fino, lisonjeiro e terno. (...)
Madrigal
Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.
Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu.
Eugénio de Andrade
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
O Café da Aroeira... X
- Vai sair?
- Sim, Hoje vou ver um filme do Ingmar Bergman.
- Sozinho?
- Tenho aqui uma garrafa Monte de Oiro - Madrigal.
- Regressa?
- Há novas e boas propostas. Um restaurante, uma viagem, um Teatro (belíssima ideia). Farei com que esta proposta chegue à Teka, a responsável por este espaço. Sugerirei que convide várias pessoas (nomeadamente o “desabafo” – o proponente desta ideia) para que não seja uma história escrita somente a duas mãos.
- De que é que mais gosta neste espaço?
- Da subtileza, da inteligência, do jogo, do contraditório, da sedução, da escrita, da poesia, da imaginação, da criatividade, da interactividade, dos participantes mais ou menos "anónimos", dos que gostam e dos que não gostam de poesia.
- Há algo de que não goste?
- Sim. Descobri esta manhã que, sem querer, o lema da Teka que encabeça este blogue: "escrever liberta" é muito semelhante a uma frase terrível utilizada pelos Nazis na 2ª guerra mundial. Sei que foi sem querer... mas quando dei por isso fiquei muito incomodado.
- Qual o filme que vai ver?
- "Mónica e o desejo". Um belo filme.
- Não tem por aí uma poesia, uma palavra?
As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal, um incêndio.
Outras, orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
(Eugénio de Andrade)
terça-feira, 31 de julho de 2007
O Café da Aroeira... IX
- Não se passa nada aqui? Há pessoa preocupadas. – pergunto ao empregado do Café
- Que querem? Uma orgia? A entrada de uma prostituta? todas saem e ficam só eles dois? sangue?
- São pessoas que não saboreiam a construção.... Detesto o “Correio da Manhã” mas tolero quem os lê. Têm razão de existir, mas não me peçam para partilhar essa leitura.
- Não percebo onde quer chegar.
- Eu explico. Que diz a placa que está à porta deste Café? “Porque escrever liberta”. É o mote. Significa que os leitores do Correio da Manhã não se devem sentir confortáveis neste espaço.
- E como empregado digo: da mesma forma que a porta está aberta para entrarem, está aberta para saírem. Não obriguem os que estão cá a lerem o “Correio da Manhã”...
- Sublime. Mas o que é que se passa no andar de cima?
- No andar de cima temos um restaurante com vista para o Rio. Está lá um casal a jantar.
- Que estão a beber?
- Duas Quintas, branco.
- Nada mal, melhor seria o Madrigal, mas não está mal. Mais um jogo de sedução?
“E vós que hoje noivais
adivinhai estes instintos
do grupo concertado por apelos
que da natureza vós mesmo
genuinamente recebeis
e o vosso digno destino encoraja!
Bocas unidas braços nus
tacteados seios extenuante sexo
fazei com que a vossa noite de prazer
justamente se cumpra!
Estas coisas ensina-lhes
oh dia de pompa de cio!
Inspira-lhes aqueles pensamentos
que deve provocar a proeza da carne
inevitável natural
como mijar quando o desejo aperta!
Faz com que se beijem se unam
com espontâneo entendimento se ajustem
e deixa que a noite vindo
aquele uso lhes ensine
que para os jovens é o gosto de abusar.
Deixa-os repetir o enlace
e o prazer derramar derramar
até que mais não possam!
im deixa a noite
seu reiterado unir-se no escuro vigiar
até que o pensamento de encandecido
aflija o desgaste
e sobre feridas formas venha o sonho
mastigar os seus nomes e abraçados
com seu amor sonhem ainda
e alguma coisa daí resulte!
E se acordarem
ensina-os a recomeçar
porque o tempo agora é todos deles.
Com júbilo com a angústia do sono enche
suas carnes em escaldante comunhão misturadas
enquanto exaustas as estrelas
no oriente o céu descoram e estremecem
onde a luz a noite desfaz
e com clamor de alegria
e adolescente rumor de vida
o tépido novo dia começa.”
(Fernando Pessoa)
segunda-feira, 30 de julho de 2007
O Café da Aroeira... VIII
De novo na sua Lisboa!
“A viagem, o regresso... são partes do mesmo percurso. O mais interessante é sempre o que ainda falta percorrer.” – li em algum lugar.
Saio do avião que invariavelmente fica a quilómetros do edifício principal e sou obrigada a desempenhar o papel de sardinha em lata durante alguns minutos. Cumpridas as formalidades e a recolha sempre lenta da bagagem, dirijo-me apressada para a rampa das chegadas.
Sinto sempre um frio na barriga quando atravesso esta porta que se abre magicamente à minha passagem.
À minha frente, uma centena de pescoços esticados a olhar na minha direcção. Esboço um sorriso, encolho a barriga, estico o peito, levanto a cabeça e avanço triunfante, é assim que se devem sentir as Misses Praia. Trinta segundos de olhares em mim. E se desta vez um desses olhares fosse realmente para mim?. Varri, como sempre, o meu olhar pela multidão expectante e nada me foi familiar, mais uma vez. De mala na mão, fiz o percurso habitual, directa às partidas, para escapar às filas e aos taxistas maldispostos quando descobrem que sou portuguesa da Silva.
Entrei num táxi de onde saiu um casal com ar de lua-de-mel que tinha a felicidade estampada no rosto. Como são diferentes as partidas e as chegadas!
- Café Aroeira por favor – pedi decidida.
Nem acreditei no que tinha dito, em vez de ir para casa, desfazer a mala, organizar-me...
- Café Aroeira? Respondeu o taxista.
- Sim! Na Aroeira, para os lados da Fonte da Telha.
- Sim eu sei perfeitamente onde é o café Aroeira, acabei de passar por lá – informou o taxista – mas olhe que aquilo por lá está complicado.
- Complicado? No Café Aroeira? Perguntei incrédula.
- Uma multidão, eu até abrandei e perguntei o que se passava porque podia ser um incêndio, ou alguém se ter sentido mal, um “anónimo” respondeu-me que aquilo por lá, hoje não estava para poesias, estava um pessoal irritado à porta e acho que não os queriam deixar entrar.
- Que estranho aquele é um lugar tão pacato.
Intrigada encostei-me e olhei pela janela em busca de um sentido. Um duplo sentido, para aquela confusão e para o impulso que me levara a seguir aquele destino. Tinha saudades, não sabia de quê, seria do café? Tive pena de não ter bebido o meu Nicola à chegada, assim o premonitório pacote de açúcar ter-me-ia dito o que poderia encontrar. Suspirei, pensei se tu estarias lá, olho para o lado e vejo um ramo de 2 antúrios vermelhos esquecidos no banco.
- Estão aqui umas flores – informei surpreendida.
- Ahhh foram aqueles moços que larguei lá no aeroporto, iam para as Maldivas, acho que não lhes vai fazer falta hehe – respondeu o homem dando uma gargalhada – olhe fique com elas.
Peguei nos 2 antúrios cuidadosamente, eram lindos, toquei-lhes ao de leve e admirei a sua cor intensa o seu aspecto resistente e delicado, uma verdadeira maravilha da natureza. Antúrio, sem dúvida alguma, a minha flor preferida. Seria um sinal? De quê?
Revi mentalmente o que iria fazer ao Café com um ramo de antúrios e uma mala na mão. Pareceria estranho. Daria a desculpa do livro, mas quem se preocupa com um livro daqueles? Na realidade porque é que morando em Lisboa e vindo de fora eu faria escala no Café da Aroeira?
- Chegámos, parece que as coisas acalmaram – disse o taxista.
Saí do táxi com as mãos ocupadas e com o coração a bater mais forte. Caminho em direcção à porta e percebo um grande reboliço lá dentro, vejo sair o Chico pela porta (o Buarque!) seguido imediatamente por um homem que caminha desgovernado na minha direcção envolto numa capa comprida. Sem me ver, esbarra comigo e algo cai ao chão. Apressadamente e sem me pedir desculpa apanha um catálogo de capa preta e segue o seu caminho. Mas era Leporello o criado de D. Giovanni! Estarei a sonhar? Cada vez percebo menos!
Entro no café onde dois grupos de pessoas olham para... para... ti?
Sento-me incrédula, pouso os meus antúrios vermelhos e vejo a cereja em cima do bolo, desta cena teatral, neste caso em cima da mesa. Tu, do alto da tua mesa discursavas assertivamente sobre qualquer coisa que não entendi. Falavas em metas, trajectórias, prazer, egoísmo. Parecias zangado mas o silêncio à tua volta era total.
Não consegui tirar os olhos de ti, eras um verdadeiro líder, um vencedor, argumentavas e as pessoas olhavam-te com respeito, até que dispersaram.
Quando desceste da mesa com um ar visivelmente satisfeito, os nossos olhos encontraram-se. Eu não consegui fugir com os meus e o meu pensamento seguia a mil, adivinhando o próximo passo. Brindaste-me com um belo sorriso e insististe no olhar. Apeteceu-me levantar e dizer... dizer... o quê? O que se diz numa situação destas?
Uma mulher toca-me de repente no ombro.
- Teka, ó filha, tu és a Teka não és? Ó filha ainda bem que te encontro. Posso sentar-me aqui contigo? – disse a mulher que estava visivelmente entusiasmada e foi-se sentando.
Não queria acreditar.
- Ó filha temos muito que conversar, o meu nome é Estrelita. Tu vê lá o que me fazes à vida, à tua e à minha. Gostas de caracóis, gostas? Vamos aqui comer uma pratada e conversar de mulher para mulher, tá bem filha? Há coisas que tu tens que saber, para não fazer um disparate – gritava ela ao meu ouvido.
Não queria acreditar, de novo.
Quem é esta? Também há caracóis no Café da Aroeira? Estou aqui a comer caracóis com esta mulher louca?
Procurei-te pelo café, quis encontrar os teus olhos, quis que saltasses para cima da minha mesa e expulsasses aquela mulher que insistia em deitar as cascas dos caracóis vazias, de novo para o prato e falava sem parar coisas que eu não entendia.
Vi que te tinhas virado para o empregado e conversavam.
Nada a fazer... agora é esperar que ela se canse!
Logo vi... noites de Lua Cheia!
ELE
Porque não fala com os outros? Pergunta-me o empregado do Rick´s Café Aroeira.
- Falo contigo, com o carteiro, com o maestro, enfim falo com todos! – respondi sorrindo.
Percebi perfeitamente a pergunta, mas que responder? Porque será que as pessoas querem respostas rápidas? e não “alimentam a dúvida” como catalisador de novas ideias, novas vivências? e querem conclusões, e não estudam, e não analisam, e nem sequer têm tempo para sentir, e...
Necessito ganhar tempo para articular a resposta. Como explicar que não posso ter um discurso directo com pessoas que existem sem que as respostas sejam das próprias?
- Em muitos diálogos... as palavras são dispensáveis – arrisquei.
- É um bom argumento... E porque será que os “outros” não estão aqui no Café?
- Não é verdade, estão todos cá. Olha para as mesas. Naquele canto a “Estrelita” na outra mesa uma “evidência” mesmo ao lado do “pairando”. E há muitos mais: “anónimos”, “sinónimos”, muita “curiosidade” e muitos mais, inclusive “fantasmas”...
- Fantasmas? fantasmas verdadeiros?
- Sim, da casa encarnada...
Tomando formas, diversas formas.
Brincam, dançam, riem de mim,
Desafiam meus medos.
Eles sabem todos os meus segredos,
Acendem as luzes dos meus becos.
E o que deixa minha consciência mais pasma
E não saber, onde começa o homem,
E onde termina o fantasma.
(Tonho França)
- Mas falta uma pessoa.
- O fantasma? – perguntei.
- Estava a pensar no “2 em 1”, mas nem sei se ele não será mesmo um fantasma...
- O 2 em1 é diferente. Não te esqueças que ficamos a meio de uma conversa. Quem será esse personagem que se chama 2em1? Muito assertivo, muito prático... até parece um engenheiro.... Se o “evidência” perguntou “quando é que o correio chegava”... pode ser que seja um sinal. Será que ele trabalha nos Correios?
- Senhor carteiro! Conhece lá nos Correios um engenheiro chamado “2 em 1”?
- Com esse nome não, mas lá há muitos e para todos os gostos...
- Ficamos com a dúvida. Pode ser que ele apareça um dia. Espero que traga uma garrafa de vinho ainda melhor que as suas muito boas propostas... por exemplo... “Barca Velha 99”
- Barca Velha? Que tipo de comida para este vinho? Carne, provavelmente?
- Caro amigo, estás a ficar conservador demais para o meu gosto... és um convencional: branco para peixe, tinto para carne... Com Barca Velha devemos comer simplesmente... queijo, presunto ou algo semelhante, porque, neste caso, o importante... é o vinho.
- E a mota, e a mota? Porque prefere a mota ao cavalo do Luky Luke?
- Lembras-te do filme “Diário de uma Viagem” com o Che atravessando a América do Sul? Achas que teria o mesmo encanto se tivessem ido de cavalo...
- Parece-me que os seus exemplos são muito cinematográficos... o senhor vive? Existe? Ou serão somente imagens?
- Não existe fronteira entre o real e o imaginário. Se alguém anda à procura de respostas exactas e rápidas... que vá a uma loja de “pronto a vestir”. Prefiro “fatos à medida”.
- Vai saborear a “lua cheia”? Pergunta, com ternura, o empregado do Café.
sábado, 28 de julho de 2007
O Café Aroeira... VI
O empregado do Café Rick´s Aroeira Café olha atentamente para mim, como se quisesse descobrir algo e pergunta de chofre:
- Porque não se levanta e vai falar com a nossa cliente que costuma estar sentada naquela mesa?
- Não percebo. Acha que é isso que eu desejo?
- Sim, E penso que é um sentimento comum aos dois.
- E se eu lhe disser que sou tímido, acredita?
- Claro que não, mas pode continuar a dizer e principalmente poderá continuar a pensar.
- Mas sou! E vou provar-lhe: não sei o que dizer, nem como dizer, nada. E se lá estivesse, provavelmente coraria... Escrever é muito mais simples
- Já o “champô” dizia isso...
- Dois em um, amaciador ou outra coisa qualquer é um assunto encerrado!
Senta-se o maestro na nossa mesa e afirma:
- Porque não tenta um tango. A minha orquestra poderá acompanha-lo. Quer um exemplo?
Lo que es morir mil veces
De ansiedad
No podrás nunca entender
Lo que es amar y aloquecer.
Tus labios que quemas,
Tus ojos que embriagan
Y que torturan mi razón...
Sed que me hace arder
Y que me enciende el pecho de pasión.
Estás clavada en mí,
Te siento latir
Abrasador de mis sienes,
Te adoro quando estás y
Te amo mucho más
cuando estás lejos de mi”
- Serve? – pergunta o maestro. Chama-se “Pasional”
- Não. Não gosto de: “te amo mucho más cuando estás lejos de mi”
- E não quer enviar uma carta – interrompe o carteiro
- Já disse, tal como o Pessoa afirmou para a sua querida Ofélia: “todas as cartas de amor são ridículas”
- Quer um exemplo? – pergunta-me o carteiro. Nas cartas de amor da Soror Mariana ela afirma: “Ignoro por que motivo te escrevo...”
- Mais outra que tem dúvidas – comento
- Temos que encantar uma solução – afirma um estranho que entrou nesse momento no café.
- Quem é você? – perguntamos todos em uníssono
- Ninguém!
- Frei Luís de Sousa? – perguntamos todos quase ao mesmo tempo.
- Não, António Silva vendedor ambulante. Estava a dizer... “ninguém” deixa de comprar os meus produtos. Mas vocês não deixaram que eu acabasse a frase.
- E então, que produtos vende?
- Um pouco de tudo, mas verdadeiramente sou especialista em champôs.
- Todos nos rimos às gargalhadas deixando o vendedor de boca aberta não percebendo a razão de tanto riso.
- Disse algo de errado?
- Não, nada disso, Se é especialista em champôs fale-nos um pouco da fórmula “dois em um”
- Temos duas variante: ou dois produtos diferentes num só... ou um produto com duas características. Temos várias marcas. Querem ver?
- Não! Dissemos todos quase ao mesmo tempo...
- E no nosso caso que será? – pergunto eu
- Para mim, diz o carteiro, preferia duas pessoas .- assim ao menos eram dois clientes... que são os que tenho.
- Na música apostamos na outra versão – Vinícius tem um samba com duas notas...
- Temos que acabar com este mistério. Penso que o “Champô” é um de nós. Provavelmente o Carteiro, Não será você?
- Eu não, mas poderia ser o meu cliente... Pablo Neruda
- Esse não pode ser – afirmei
- Porquê? - perguntaram todos?
- Neruda não escreve assim!
Convencidos perguntaram
- E então quem será?
Todos se viraram para o empregado do Café
- Você?
- Estou sempre aqui próximo dos meus clientes. Não tenho acesso a essas modernices. Ainda trabalho com uma “caixa registadora manual”...
Reparei em vários olhares inquisidores que se viravam para mim...
- Não será você?
“Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.
(Álvaro de Campos)
O Café Aroeira... V
- Aqui há uma certa dificuldade em distinguir o sonho da realidade - afirmo para o empregado do café Rick´s Aroeira Café
- É um problema comum a muitos dos meus Clientes. Haverá interesse em os distinguir? E porque esta questão agora neste momento?
- Será que dancei mesmo? o Chico esteve aqui a cantar? haverá uma orquestra? e o Café, é fruto da imaginação?
- Saboreie, saboreie a vida. Onde é que eu terei lido isto?
- Provavelmente num pacote de açúcar, DELTA, claro!
- Regressando à sua questão, caro cliente, porquê preocupado em separar a realidade do imaginário?
- Estive atento a um novo cliente deste café, que se meteu comigo.
- É um dos lemas deste Café. A criatividade ao poder e liberdade com responsabilidade - outra frase feita. Esta não devo ter lido num pacote de açúcar...
- Estava a dizer que se tinham metido comigo. E como respondo às provocações... não deixo de continuara a falar entre o real e virtual. Ele afirmou que eu me refugio no virtual e que fujo da realidade. (disse "não fugas, mas penso que provavelmente quereria dizer: "não fujas"...)
- E então?
- Reconheço que ele deve ter alguma razão, mas tenho que me defender.
- Defender de quê? e porquê? Será que ele afirmou algo que não seja verdade?
- A verdade é como os champô´s... "dois em um"...
- Ah, Ah, Ah. Essa é que verdadeiramente não é uma frase com açúcar... e quem será o "amaciador"?
- Essa é uma boa piada. A "criatividade é uma semente que deve ser regada".
- Mas há vários sinais interessantes...a fuga? o virtual, o primeiro beijo, o romance a duas mãos (gostei)... e porque será que refere uma mota?
- Prefere uma mota ou o cavalo do Luky Luke?
- O Luky Luke não tem lá muita piada...no fim das histórias ele fica sempre sozinho com o cavalo... não me seduz lá muito. A mota poderá ser que seja um pouco diferente... cavalo alado com destino às estrelas... Pode ser um bom princípio de uma nova história. Maestro, por favor.
- Chamou-me? - pergunta o maestro aproximando-se da nossa mesa.
- Como foi possível a sua banda, que é de Jazz, ter acompanhado o Chico Buarque?
- Tenho imenso prazer em acompanhar o Chico Buarque tal como o Caetano Veloso.
- De facto "de longe somos todos normais"...
- A nossa orquestra transpira "música por todos os poros". É um prazer tocar neste Café.
- E uma ária de uma ópera? Também se pode tocar aqui?
- Tudo é possível neste Café. Alguma ópera em especial?
- A Flauta Mágica de Mozart.
- Fiquei intrigado – comenta o empregado do Café. Se ele se meteu consigo com a ária “Catálogo” do D. Giovanni porque pediu para tocar a “Flauta Mágica”?
- Não sabe a história desta ópera?. Há uma princesa sequestrada, há um príncipe e um caçador de pássaros que tomam a missão de a libertar. Depois de vários episódios mais ou menos atribulados com flautas e carrilhões mágicos tudo acaba em bem “casaram e foram felizes”. Apetece-me histórias com um fim feliz.
- Não me parece seu. Parece uma história tipo “cor de rosa” – diz o empregado perfeitamente admirado. Afinal não conhecia o seu cliente.
- Conhece a história do D. Giovanni? É uma desgraça. A música é muito bonita, mas “poupem-me”. Estou cansado de sofrer...
- Surpresa total – diz o empregado. Este Café virou consultório de Psicanalista
- Nada disso... Posso pedir-lhe um Gin Tónico?
- Gordon´s?
- Claro, isso nem se pergunta.
Com este pedido momentaneamente ganhei “espaço” para poder respirar.
A história do Champô “dois em um” tinha-me perturbado. Quem será? Diz que não nos conhece... mas não acredito.
“Só brinca quem sabe” – não foi retirado de um pacote de açúcar... mas poderia ter sido.
- Olá, bom dia –Era o carteiro, sempre simpático.
- Ainda bem que o encontro. Tem que me ajudar.
- Onde se vendem Champôs?
- Não posso acreditar. Este é mesmo um espaço aberto onde não há segredos.
- Não, obrigado. Onde fica o Café “Alfredo”? Só conheço um em Linda a Velha, mas parece-me que não deve ser esse.
- Sabe o Código Postal?
- Claro que não, se soubesse era “meio caminho andado”
- Então nada feito... mas vou tentar averiguar.
Quando for grande vou ser
Quero ser um realejo
Ter um pedaço de terra
Fogo que salta ao braseiro
Dormir no fundo da serra
Quero ser um realejo
Carteiro em bicicleta
Leva recados de amor
Vem o sono com a música
Ao som do realejo”
João Afonso
sexta-feira, 27 de julho de 2007
Sonhos...
quinta-feira, 26 de julho de 2007
O Café Aroeira... IV
Viro-me e continuo a tentar desesperadamente reconstruir o sonho: pegas na minha mão, olho os teus olhos...
Trimm Trimm de novo a insistente campainha... sim definitivamente é a da porta. Fico irritada.
Logo agora... olhei a beira da cama... nenhum antúrio!
Levanto-me estremunhada, meia descoordenada e vou até à porta.
- Quem é?
- Carteiro
- Por favor deixe o correio na caixa – disse do lado de cá da porta não reconhecendo naquela, a voz do Sr. João – Obrigada.
“Facturas e publicidade” é o que retiro todos os dias da caixa, formulários impessoais, discursos iguais em folhas onde só muda o logótipo e os números astronómicos que se pagam. Papel e papel deitado fora sem sentido, a anunciar produtos e serviços que não queremos e não precisamos. Onde andam as cartas, os sentimentos entre as pessoas? Onde andam as palavras que verdadeiramente interessam?
- Trago uma mensagem.
- Uma mensagem?
- Sim. “Uma mensagem, um pedido, um desejo ou um convite? Um jantar íntimo regado com conversas tranquilas”.
- Desculpe, mas quem é que disse que era?
- Sou o Carteiro... de Neruda!
E eu sou a Branca de Neve, pensei para dentro meia inquieta pelo tempo que estava a perder. Algum louco. “Filha não abras a porta a estranhos”, lembrava-me da minha mãe a dizer.
- Peço desculpa mas agora não posso abrir, qualquer coisa deixe na caixa por favor.
O Carteiro de Neruda à porta, às 8h da manhã, logo hoje em que queria acabar o sonho e voar para longe.
Olhei o relógio. Senti-me ansiosa, estado muito recorrente nas últimas semanas.
Enquanto tomava o meu duche pensei na mensagem, pedido, desejo, convite, um jantar íntimo regado com conversas tranquilas, uma charada? O que quereria dizer, faria parte do sonho? Teria mesmo um carteiro batido à minha porta? “O carteiro toca sempre duas vezes”, mas isso foi em 1981.
Pensei na história, um carteiro que recebe ajuda do poeta Pablo Neruda a fim de conquistar o amor da sua vida. Mário, um homem que sonha através das palavras do seu Mestre, mesmo sem perceber todo o sentido. Um hino à Amizade e ao Amor, estes dois valores imprescindíveis mas por vezes tão ambivalentes. Estaria um carteiro a bater à porta da minha vida? Ou um escritor?
Intrigada completei os meus gestos matinais, olhei para o espelho: “o tempo está a passar”. Franzi o sobrolho, maquinalmente espalhei o creme maravilha que psicologicamente resulta naquelas “marquinhas” que já não se esbatem.
Agora tenho que ir para o futuro.
Rapidamente acabei de fazer a mala, com os olhos procurei o livro. Onde está o livro? Sim, aquele que me ensina a não sofrer com métodos nos quais não acredito, ou não fosse uma Rogeriana convicta. “que se lixe... ah! terá ficado no Café Aroeira?”. Só a simples evocação deste lugar acelerou o meu coração. Lembrei-me dos teus olhos, do teu aceno de cabeça, da tranquilidade que depositavas na tua leitura, do teu olhar nas minhas costas quando sai. Quem és tu?
Fechei tudo, a mala, o gás, a água, a electricidade, o passado.
Chamei o táxi, mas antes parei no “Alfredo” para o meu vício matinal.
Olhei para o pacote de açúcar e não pude deixar de sorrir.
“Um dia ponho a mochila às costas e vou conhecer o mundo.”
“Hoje é o dia”
Pacote de açúcar?
Uma mensagem? Um sinal?
Premonição?
Chego ao lugar mais especial desta minha cidade, onde tudo começa e acaba, enfrento a fila feliz, apesar do tempo de espera e do calor sufocante. Apressada corro por entre culturas e bagagens. Rostos anónimos, com destino marcado. Sonho que te vi? Ou será que te vi? Ainda olho para trás, perdi-te, eras tu? O meu pensamento ficou levemente em ti...
Chegou a hora!
Antes tenho tempo para o meu último ritual de cada vez que viajo: a minha última bica do dia em Portugal, apesar dos 1.20 euros.
Procuro um café, mas não um qualquer, tem que ser Nicola! Procuro a frase, no premonitório pacote de Açúcar...
“Um dia farei de ti a pessoa mais feliz do mundo.”
Não posso deixar de sorrir, de novo.
Entro no avião, respiro fundo, aperto o cinto e...
Deixo-me levar pelas nuvens...
Fui... para a terra dos príncipes e princesas...
ELE
O Café Aroeira... III
- Bom dia, sr. Carteiro.
A desilusão encheu todo o meu corpo, todo o meu espaço. Esperava outra notícia, outro mensageiro. Tentando disfarçar o meu desalento arrisquei:
- Ultimamente só distribui facturas e publicidade, senhor carteiro.
- Só tenho dois clientes, e esses recebem mensagens, recados., enfim verdadeiras cartas.
- As cartas de amor são ridículas, diz Pessoa.
- Por falar de poesia... sou o carteiro de Neruda.
“Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.”
(Pablo Neruda)
- Dois clientes? Mas no filme só havia um...
- Há também uma cliente. Quer que envie para ela alguma mensagem?
“Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída”
(Pablo Neruda)
- Uma mensagem, um pedido, um desejo ou um convite? Um jantar íntimo regado com conversas tranquilas.
- Não esquecerei de transmitir. Agora tenho que ir. O meu giro ainda está a meio. Bom dia.
Pedi um café. Reparei na inscrição do pacote de açúcar: “saborear é a melhor coisa do mundo”.
Cada vez gosto mais do Café da Aroeira.
Certeza que há “mais vida para além do Café da Aroeira”.
Fazes bem em saborear: mais prazer, saudade, bem estar e tranquilidade... pensar, e viver, o teu futuro, claro!
Regressei a Lisboa e meti-me num avião.
Esta noite vou dormir num quarto “sobre o mar”.
É o meu desejo! E devemos LUTAR para que os desejos se transformem em realidades...
Já no avião estive atento ao pacote do açúcar. Tentei descobrir qualquer mensagem, qualquer sinal.
Desilusão: somente leio... “Sinagra o açúcar dos Açores”.
Não posso acreditar... uma fábrica! Nem Açores é o meu destino...
Mais uma vez, não desisti. Pesquisei no Google - Sinagra é, também (principalmente?) uma localidade em Cecília (outra ilha).
Ilha cheia de vida, com vulcões, muita cor e... com “cheiro” a África.
“Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa –
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. –
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.
Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.”
(Herberto Helder)
Já estou no quarto sobre o mar. O meu desejo foi transformado em realidade...
Neste espaço nesta ilha descubro muitas flores: estrelícias, antúrios, orquídeas, sapatinhos, hortenses - a flor do teu post de 19JUL (aqui chamada de “novelos”).
No hotel não me encheram o quarto de flores, o sofá é azul, não descubro a manta, o chá não é de princesa, não há gestos, mas o que verdadeiramente sinto falta são de... conversas tranquilas.
Resta-me a companhia do silêncio e da música do mar em perfeita sintonia.
Esta noite deixarei a janela aberta.
ELE (sempre)
- Play it again, Sam.
Silêncio em toda a sala. Como tudo se transforma. Que se terá passado? Terá uma simples viagem alterado tudo?
- Bom dia!
Uma voz vinda do nada?
Era o carteiro! Reconheceu-me.
- Não consegui transmitir a sua mensagem... Temos um “Processo” complicado.
- “Processo”? Tal como no livro do Kafka? Mas esse foi em Praga e não aqui na Aroeira (Casablanca?)
- Kafka também escreveu uma carta. No caso dele, dirigida ao pai...
- Os carteiros entram em muitas histórias..
“Em cada tarde desta vida que escolhi
Deste tempo feito aqui
Ao momento que estremece
É um carteiro que como um barco em viagem
Se não tem voz de paragem
Navegou, desaparece.
Chegam palavras chegam recados
Chegam saudades que enternecem
Chegam palavras chegam recados
Chegam amigos que não esquecem
Dentro das cartas com as palavras”
(Fernando Tordo)
- Hoje em dia tudo é em “correio azul” – replica o carteiro...
“Manda-me uma carta em Correio Azul
P´ra afastar essas cinco nuvens negras
Relembra-me as regras
Do saber viver
Repõe-me o sentido nos sentidos
Olfactos,
Ouvidos
À vista
De tactos
Do teu paladar.”
(Sérgio Godinho)


