Viro-me e continuo a tentar desesperadamente reconstruir o sonho: pegas na minha mão, olho os teus olhos...
Trimm Trimm de novo a insistente campainha... sim definitivamente é a da porta. Fico irritada.
Logo agora... olhei a beira da cama... nenhum antúrio!
Levanto-me estremunhada, meia descoordenada e vou até à porta.
- Quem é?
- Carteiro
- Por favor deixe o correio na caixa – disse do lado de cá da porta não reconhecendo naquela, a voz do Sr. João – Obrigada.
“Facturas e publicidade” é o que retiro todos os dias da caixa, formulários impessoais, discursos iguais em folhas onde só muda o logótipo e os números astronómicos que se pagam. Papel e papel deitado fora sem sentido, a anunciar produtos e serviços que não queremos e não precisamos. Onde andam as cartas, os sentimentos entre as pessoas? Onde andam as palavras que verdadeiramente interessam?
- Trago uma mensagem.
- Uma mensagem?
- Sim. “Uma mensagem, um pedido, um desejo ou um convite? Um jantar íntimo regado com conversas tranquilas”.
- Desculpe, mas quem é que disse que era?
- Sou o Carteiro... de Neruda!
E eu sou a Branca de Neve, pensei para dentro meia inquieta pelo tempo que estava a perder. Algum louco. “Filha não abras a porta a estranhos”, lembrava-me da minha mãe a dizer.
- Peço desculpa mas agora não posso abrir, qualquer coisa deixe na caixa por favor.
O Carteiro de Neruda à porta, às 8h da manhã, logo hoje em que queria acabar o sonho e voar para longe.
Olhei o relógio. Senti-me ansiosa, estado muito recorrente nas últimas semanas.
Enquanto tomava o meu duche pensei na mensagem, pedido, desejo, convite, um jantar íntimo regado com conversas tranquilas, uma charada? O que quereria dizer, faria parte do sonho? Teria mesmo um carteiro batido à minha porta? “O carteiro toca sempre duas vezes”, mas isso foi em 1981.
Pensei na história, um carteiro que recebe ajuda do poeta Pablo Neruda a fim de conquistar o amor da sua vida. Mário, um homem que sonha através das palavras do seu Mestre, mesmo sem perceber todo o sentido. Um hino à Amizade e ao Amor, estes dois valores imprescindíveis mas por vezes tão ambivalentes. Estaria um carteiro a bater à porta da minha vida? Ou um escritor?
Intrigada completei os meus gestos matinais, olhei para o espelho: “o tempo está a passar”. Franzi o sobrolho, maquinalmente espalhei o creme maravilha que psicologicamente resulta naquelas “marquinhas” que já não se esbatem.
Agora tenho que ir para o futuro.
Rapidamente acabei de fazer a mala, com os olhos procurei o livro. Onde está o livro? Sim, aquele que me ensina a não sofrer com métodos nos quais não acredito, ou não fosse uma Rogeriana convicta. “que se lixe... ah! terá ficado no Café Aroeira?”. Só a simples evocação deste lugar acelerou o meu coração. Lembrei-me dos teus olhos, do teu aceno de cabeça, da tranquilidade que depositavas na tua leitura, do teu olhar nas minhas costas quando sai. Quem és tu?
Fechei tudo, a mala, o gás, a água, a electricidade, o passado.
Chamei o táxi, mas antes parei no “Alfredo” para o meu vício matinal.
Olhei para o pacote de açúcar e não pude deixar de sorrir.
“Um dia ponho a mochila às costas e vou conhecer o mundo.”
“Hoje é o dia”
Pacote de açúcar?
Uma mensagem? Um sinal?
Premonição?
Chego ao lugar mais especial desta minha cidade, onde tudo começa e acaba, enfrento a fila feliz, apesar do tempo de espera e do calor sufocante. Apressada corro por entre culturas e bagagens. Rostos anónimos, com destino marcado. Sonho que te vi? Ou será que te vi? Ainda olho para trás, perdi-te, eras tu? O meu pensamento ficou levemente em ti...
Chegou a hora!
Antes tenho tempo para o meu último ritual de cada vez que viajo: a minha última bica do dia em Portugal, apesar dos 1.20 euros.
Procuro um café, mas não um qualquer, tem que ser Nicola! Procuro a frase, no premonitório pacote de Açúcar...
“Um dia farei de ti a pessoa mais feliz do mundo.”
Não posso deixar de sorrir, de novo.
Entro no avião, respiro fundo, aperto o cinto e...
Deixo-me levar pelas nuvens...
Fui... para a terra dos príncipes e princesas...
ELE
















