
Não posso deixar de partilhar esta foto de um aviso que encontrei num local lindíssimo.
Insólito: a arma...
No mínimo faz pensar.
Sentir, Aprender, Registar... Escrever o que me vai na alma. E conversar Sempre... tranquilamente, com quem se gosta!
Madrigal
Eugénio de Andrade

ELE
ELE (sempre)

ELE
"Mesmo ao lado da tua mesa saboreio um livro (Montalbán?). A vossa conversa fez-me interromper momentaneamente a leitura. O que era uma privada e ternurenta troca de impressões entre cúmplices de um percurso transformou-se num espaço público.
Mantive-me discreto e silencioso. Bastava-me ter uma visão antropológica das pessoas, dos gestos, das formas, dos movimentos.
Quem seriam? Que fariam? Como pensam? Que percursos?
A minha curiosidade (sempre) acentuou-se quando reparei que tu respondias a todos, a qualquer pessoa (anónimo ou não) mesmo que não estivesse na vossa “mesa”.
Respondias “olhos nos olhos” afirmando: “Este comentário é mesmo para ti. Regressa sempre”
Como ficar indiferente aos teus “olhos”?”
ELA
(no prelo)
ELE
Concentrado na leitura da viagem de Carvalho, o “detective do Moltalbán" em Cabul, fui interrompido:
- Estamos "no prelo"
- "No prelo"? - perguntei intrigado.
- "No prelo" significa "em fase de conclusão"...
- O "Café da Aroeira" não está aberto 24 horas por dia?
"Café no prelo"?, “Apontamento no prelo"? ou será... "Sentidos no prelo"?
Resolvi não investigar, fico a saborear a dúvida...
Deverei escrever?
“Escrever é procurar corresponder
ainda que não se saiba a quê ou se esse quê existe
A nossa liberdade nasce de uma incerteza radical
E a sua metamorfose é a invenção de um espaço
De correspondências que visam uma atmosfera inviolável
Nunca saberemos mas precisamos de desenhar a forma de um caminho
Que vai até ao extremo do silêncio e reflui para o espaço
Das nossas vidas sonâmbulas e incertas
E que nos abre o peito para uma respiração de estrelas vivas
Embora continuemos a deambular no deserto (...)”
(António Ramos Rosa)
- O "Café da Aroeira" não está aberto 24 horas por dia?
- ...
Provavelmente tudo era ”uma invenção de um espaço”
Regressei à leitura do livro.
ELA
De novo no mesmo café de sempre, na mesma mesa, servida pelo mesmo empregado. A debater o mesmo assunto em que invariavelmente sempre surge o impasse. Trocas cúmplices que mostram sentimentos delicados. Sinto-me mais uma vez a perder a batalha da discussão entre o passado e o presente. Olho à volta em busca de reforço para o meu próximo argumento.
Numa fracção de segundo os meus olhos encontram os teus.
Pego na chávena como que a ganhar tempo. A minha voz, ouço-a a sair: “não se parte quando não se quer chegar”, “Jamais se diz aquilo que fica por dizer”.
Sinto o teu olhar em mim, subtil, curioso, talvez surpreendido com as minhas palavras.
Desisto, ele levanta-se, não estamos zangados, o tempo que nos conhecemos e vivemos não permite rupturas. Despeço-me, apesar de tudo, com um sorriso carinhoso que ainda é código entre os dois.
Fico de novo sozinha, pego de novo na chávena, o café está frio.
Ouso olhar para ti de frente, como que para mudar de assunto, curiosa, pareces alto, cabelo cheio, feições finas, olhos expressivos, tranquilo, discreto, envolto na tua leitura. O teu livro, parece-me que li Montalbán, contrasta com o meu “A Inutilidade do Sofrimento” retirado à pressa de uma dessas prateleiras de auto-ajuda para aprender a atenuar a tristeza. Tens um copo à tua frente, pousas o livro e enquanto levas a mão ao copo, os nossos olhos tocam-se e demoram-se uns segundos que parecem minutos. Atrapalhada, sinto-me notada e surpreendida com o meu coração que bate mais rápido. Intuitivamente inclinamos milimetricamente a cabeça num breve aceno.
És um cavalheiro, desvias o olhar e, tranquilamente retomas a tua leitura. Sabes que não fiquei indiferente. Sinto-me aconchegada e fico pensativa: será que esta mesa não pode também ser a tua?
Ele
“Hesito perante este convite.
A revolução é mais saborosa que a democracia, a descoberta seduz mais que a ocupação... a conquista deve ser vivida.
O Gin Tónico ainda está longe do fim e o livro de Montalbán chama-me
“... esperava um discurso dissuasivo de Carvalho mas o detective limitou-se a arquear as sobrancelhas.
Você também duvida?
- Todos os dias.
- E como o ultrapassa?
- Deixando de duvidar.
- De quanto em quanto tempo?
- Todos os dias.
- Admirável essa tensão destruidora e simultaneamente construtiva.
- Talvez as mesmas dúvidas sejam menos abstractas ou transcendentes que as suas.
- Todas as dúvidas são abstractas e transcendentais porque Deus, que é certeza, nos colocou no cérebro a possibilidade da dúvida.
- “Duvida, meu filho, da tua própria dúvida”, disse Deus ao marquês de Marianao.
- Está a ver. Isso não sabia. E porquê ao marquês de Marianao?
- Sabe-se lá. Lembre-se da história exemplar de Santo Agostinho e do menino que tentava meter o mar num barquinho que tinha feito na areia da praia.
- Excelente exemplo! Vejo que é um bom polemista. Vamos passar uma viagem excelente...”
Olhei em volta no café. Estavam muito menos pessoas.
Bebi um novo gole de Gondon´s .”
ELA
Segui-te o exemplo, só que o meu livro não é tão interessante como parece ser o teu. “O pensamento é prévio à emoção, e esse pensamento é que nos faz sentir bem ou mal”, “não soframos inutilmente! Se controlarmos os nossos pensamentos, controlaremos a nossa vida!”. Sorri, fechei o livro, olhei para ti, continuavas embrenhado, sereno. E sem saber que lias sobre dúvidas, imaginei se esta poderia ser uma frase tua. Achei improvável, quem olha assim... quem toca assim com o olhar...
Reparei no empregado que se dirigia a ti.
Levantei-me, eram horas. Serpenteei por entre as mesas e passei colada à tua, sem me atrever a cruzar o meu olhar com o teu. De relance ouço-te “No prelo?” e saio em direcção ao meu carro.
Da Aroeira a Lisboa penso nas batalhas perdidas, nesse teu olhar inesperado, na tua voz, no efeito que teve em mim, no teu livro e nessa palavra intrigante. Prelo “em fase de conclusão”. Quis que o café da Aroeira estivesse aberto 24 h, quis que nunca acabasses de ler o teu livro...
De noite, como há muitos meses não acontecia, adormeci com um sorriso.
Será que este sentido pode ser apontado?
Prelo... talvez sejas escritor...
ELE
"Regressei à leitura do livro incomodado por não ter interrompido a conversa com o empregado quando senti o teu corpo passando colado à minha mesa.
Deveria ter-me levantado, dar-te as mãos, olhar nos teus olhos, e... que dizer?
Não sei!... provavelmente fiz bem em não ter feito nada.
Não é verdade!
“Não fazer nada” é “fazer algo”!
A ausência de uma decisão é uma decisão!
Há um enorme silêncio na sala.
Reparo que na tua mesa ficou esquecido um livro: “A inutilidade do Sofrimento”.
Não me seduz muito... a história da “formiga a transportar uma folha”... enfim, e o título? perfeitamente discutível!
“O sofrimento também faz crescer, o sofrimento também ajuda a descoberta”. Quem será esta María Jesús Álava Reyes? Terá alguma vez sofrido?
“Um guia prático com exercícios de autocontrolo, reflexões, pautas de comportamento e vários testemunhos que pretende levar as pessoas a questionarem-se e, pouco a pouco, a encontrarem as suas respostas”.
O meu lado perverso diria: parece um “Manual de procedimentos”... tipo: “Como utilizar uma máquina de lavar roupa”.
Continua o livro: “aproveitai o dia, porque o passado já era, e o futuro ainda não chegou”.
Como é possível afirmar “isto”... o futuro está aqui mesmo, estamos sempre a tropeçar nele, cada vez mais o futuro se aproxima do presente... o presente é volátil, simples passagem entre o que fica o que está sempre a chegar...
Saberei mesmo algo? Serei alguém?
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(...) Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!”
Álvaro de Campos
Regressei ao “meu” livro e lembrei-me de um dos gestos preferidos do “Carvalho, o detective de Montalbán”... queimar alguns livros.
Aqui faz falta uma lareira!"
O marquês de Brah envergara a armadura sem sentir um peso no coração. “Estranho”, reflectiu, num resquício de consciência pesada, “devia ver o sangue ao espirrar...”
Montou no cavalo que fora do seu pai e de seu avô e partiu, à frente da horda desonesta, para mais uma cruzada campestre. “À carga, meus bravos cavaleiros”, bradava de cinco em cinco riachos atravessados, na floresta enevoada e lenta.
“À carga de porrada responderemos com a nomeação democrática de um novo bispo que nos benza”.
Era uma atitude política! Verdadeiro estado moderno. Afinal estávamos em 1040... “viva purtucale!!!” gritou uma vez mais, feliz de se ter inventado tão bravo; e continuou, “heróis do mar nobre povo nação valente e imortal lalalala” .
Portugal! Portugal!
À sua frente um grupo gritava desafinado, “levantai hoje de novo...” esfregou os olhos, tonto, tentou focar, a sua mão ensanguentada deu sinal de vida. À sua volta buzinas, panos verdes e vermelhos, caras pintalgadas, manchas laranjas, cânticos estranhos, vidros partidos, homens de negro empunhando bastões, protegidos por viseiras.
Gosto amargo de boca, garganta seca. Num gesto automático bebericou a sua loira de litro, agora quente e mole. Alguém o ajudou a levantar-se dando-lhe uma palmadinha nas costas: “então rapaz!”
Tentou equilibrar-se, “afinal 1040, 2004, 2104 tanto faz...”. Empunhou a bandeira, seguiu o seu caminho e por mais umas horas esqueceu a sua vida, “... contra os canhões marchar! Marchar!!”.

HOJE acordei de manhã e fiz-me à estrada, de Peniche à minha Lisboa pensei e senti muito. Abri a porta de casa e enrolada no meu sofá branco ouvi e senti de novo essa canção que cura saudades. Ouvi e senti uma, duas, três... uma e outra vez para te sentir mais perto.
HOJE penso especialmente numa pessoa muito presente dentro de mim que guardo num lugar muito quentinho. Dona de uma sensibilidade infinita, cheia de Amor, contentora, carinhosa, inteligente, amiga e com uma mão da qual me quero lembrar o resto da minha vida, mesmo que nunca mais possa encontrar a minha. Um porto de abrigo tranquilo, delicado, onde ri e chorei vezes sem conta.
"Eu só quero que você saiba


* Eugénio de Andrade, O Sorriso. Em O Outro Nome da Terra.
... porque as lágrimas afastam.
Acompanhei-o durante 3 anos.
Que sentido teve a vida dele... nasceu para quê?
Faz-me pensar no sentido da vida e na nossa necessidade de lhe dar um sentido.
Fiquei a pensar nas PERDAS e em tudo o que elas implicam, nomeadamente CRESCIMENTO.
Sinto-me "desempregada" afectivamente.
