
Sentir, Aprender, Registar... Escrever o que me vai na alma. E conversar Sempre... tranquilamente, com quem se gosta!
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
Tempos...

domingo, 28 de outubro de 2007
sábado, 27 de outubro de 2007
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Os melhores sketches dos Monty Python...
Quem não ficou seduzido pelo humor diferenciado e mordaz dos Monty Python nos anos 70/80 (os da minha geração claro)?terça-feira, 23 de outubro de 2007
"Estou... de volta pro meu aconchego...
domingo, 21 de outubro de 2007
Sinto... aguardo... paciente... porque os carteiros chegam a todos os lugares do mundo...

“Se cada dia cai
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.”
(Pablo Neruda)
A magia dos sabores e dos sentidos da Bahia...

À beira do mar, o acarajé é Rei, acompanhado da Brahma gelada e de partilhas especiais interrompidas por mergulhos no mar que energizam a alma, neste lugar amado do meu mundo, onde o corpo fica mais quente, mais salgado, mais livre, sentindo à flor da pele a beleza de estar aqui e poder viver a emoção de ser especial.

Dentro de portas, o carinho com que se recebem os amigos, com que se aguçam paladares, com que se doam momentos de vida, faz valer a pena estar vivo, aproxima corações, alimenta recordações que encurtarão a distância... quando as saudades apertarem... quando os dias estiverem tristes... quando eu "morar no interior do meu interior"...

E quando um dia a noite chegar
E quando o beija flor não me vier mais cumprimentar
E quando o pássaro preto não me encantar mais com a sua alegria e não me pedir que acaricie as suas penas suaves
E quando os cachorros não me saudarem
E quando a jarra dos antúrios não animar mais o meu quarto
E quando eu já não puder abrir o meu livro perfumado, das pontes
E quando as mãos não se conseguirem entrelaçar
E quando os olhos não se puderem tocar
E quando as persianas se fecharem...
Não faz mal...
Estará tudo inviolado dentro de mim!
sábado, 20 de outubro de 2007
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
domingo, 14 de outubro de 2007
O Sítio da Casa Amarela...

Acontecimentos que me privaram de muitas coisas, mas que também me trouxeram muitas outras.
O “Sítio da Casa Amarela” (4 anos passados) continua a ser o porto de abrigo das minhas emoções e dos meus sentimentos mais verdadeiros, transmite-me a mesma calma, permite-me olhar para dentro de mim e dá-me a liberdade de partilhar o que sinto, o que penso, sentir-me bem recebida, bem acolhida e amada no mais puro sentido da palavra AMOR.
Um dia Karen Blixen escreveu: “I had a farm in África”.
Eu, tenho a sorte de ter uma “Casa Amarela”, no Brasil, onde posso guardar os meus livros.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
Tempos de mudanças...
E o Verão já vai longe...
O sol, o corpo quente e descoberto, a emoção de sentir mais intensamente, mais livre, mais à flor da pele...ficou retida num tempo...
O clima muda, o corpo esconde-se, as esplanadas esvaziam-se, a noite chega mais cedo, o tempo agora é outro... Convida à reflexão, à leitura no sofá, às conversas tranquilas em boa companhia...
E porque não ler e partilhar um dos mais belos sonetos do nosso Camões.
Lembrei-me agora de ti minha Sampa amiga, saudades de te ouvir ler quando as estrelas apareciam no céu, na minha sala e lembrei-me que foi assim, pela tua voz bem colocada, num tom sereno que me apresentaste Drummond de Andrade. Aqui vai para a troca... Como se estivesse a ler para ti...
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades
Continuamente vemos novidades
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e em mim converte em choro e doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía...

sábado, 29 de setembro de 2007
Lição de vida...
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis, 1916
Hoje aprendi com esta frase...
Diogo Infante é o Hamlet e o João Mota o encenador. Vale a pena, a interpretação e a adaptação estão excelentes.
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
À nossa!... minha amiga
Tantas viagens partilhadas já tem este nosso caminho
“Viajar é correr mundo”*
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
domingo, 23 de setembro de 2007
Prazeres...
domingo, 16 de setembro de 2007
E Bem Vindo a quem chega à "nossa" Lisboa...
(In Sinais de Fernando Alves, 20-6-2007)
E disse ainda brilhantemente Fernando Alves: "Gosto de chegar a aeroportos, mas também de os percorrer vendo o que resta de improváveis lugares em cada rosto, em cada modo de andar".
Também eu sou tocada pelo fascínio de me misturar entre gente que chega e parte carregando tantas histórias na bagagem, tantas aventuras e desventuras.
Gosto de me embrenhar entre corpos apressados, à procura de portas de embarque, a comparar preços de perfumes, vinhos e cremes milagrosos, a comprar pacotes de tabaco, revistas e pastilhas elásticas, a enganar o estomago de fast food.
Gosto de olhar a atrapalhação dos estreantes ávidos de informação. Num misto de receio e curiosidade, percorrem os espaços, ansiosos.
Gosto de observar as famílias numerosas com os seus pertences concentrados nas cadeiras com um guardião que exige ser rendido a cada 5 minutos.
Gosto da segurança e da indiferença ao que os rodeia, dos executivos. Viajam com uma pasta, fato e gravata impecáveis, sentam-se tranquilos a ler o seu jornal que nunca é o "Correio da Manhã", atendem telemóveis e consultam palms. Sabem sempre onde, quando embarcam, entram decididos no avião, maquinalmente guardam os seus pertences e começam a trabalhar.
Gosto de olhar rostos, adivinhar histórias de vida e destinos prováveis.
Gosto de me sentir envolvida pela expectativa do "descer do avião", de ser inundada por outra cultura, de me deixar surpreender, de tocar outros mundos, de sentir outros perfumes, outras cores e de aprender. Aprender... sempre!
Gosto, ainda mais... quando posso partilhar todo este meu sentir!
Apesar de tudo...
Ainda gosto de pessoas!
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
O manual do Insólito...
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
O Café Aroeira... XI
Não aguentei mais. Levantei-me e deixei-a a falar sozinha.
Olhei em redor.
As mesas quase todas ocupadas estavam vazias de ti.
O maestro tocava ao piano a canção que tinhas pedido, antes daquela mulher horrorosa se ter sentado à minha mesa: “let’s do it, let´s fall in love”.
Onde estás? Quero falar contigo ao menos uma vez. Procurei a tua mesa, o teu livro, o teu Gin tónico, a tua tranquilidade, os teus olhos.
O empregado de mesa fez-me um sinal e apontou as escadas que conduziam ao andar de cima.
Vou?
Não vou?
Vacilo, o coração diz-me para ir, a razão diz-me para não ir, “apetece-me histórias com fim feliz”.
Mas... tudo tem um fim.
Decido, saio pela porta, com o pensamento a mil, para trás deixo o “Rick´s Aroeira Café”.
- “De todos os bares, de todas as cidades do mundo, ele entra no meu”.
Sinto-me sufocar!
Descalço os sapatos e afundo os pés na areia, ando pela praia iluminada pela lua cheia, sinto o cheiro a mar, molho os pés, sento-me numa rocha e procuro respostas.
Ouço vozes! Vindas de “uma poça de água muito limpa e transparente toda rodeada de anémonas”:
- “Trago-te aqui uma flor da terra – disse; chama-se uma rosa.
- É linda, é linda – disse a Menina do Mar, dando palmas de alegria e correndo e saltando em roda da rosa.
- Respira o seu cheiro para ver como é perfumada.
A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente.
Depois levantou a cabeça e disse suspirando:
- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
- Isso é por causa da saudade – disse o rapaz.
- Mas o que é a saudade? – perguntou a Menina do Mar.
- A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.
- Ai! – suspirou a Menina do Mar olhando para a Terra. Porque é que mostraste a rosa? Agora estou com vontade de chorar.
O rapaz atirou fora a rosa e disse:
- Esquece-te da rosa e vamos brincar.” (In, a menina do mar, Sophia Andresen)
Vejo o rapaz e a Menina do Mar que não tinha mais do que um palmo de altura e era linda, a afastarem-se.
Apanho a rosa e sinto o perfume mágico. Uma pista?
Penso nas tuas palavras, no desejo, na importância da trajectória em detrimento da meta, no egoísmo, no direito ao prazer, no sonho, no risco da saudade.
Penso no teu sorriso, nas tuas mãos que não senti nas minhas, no teu olhar...
Apesar do risco da saudade...
Corro de volta ao “Rick´s Aroeira Café”, atravesso a sala até ao piano, ofegante digo ao maestro:
- Toque mais uma vez Sam. Pelos velhos tempos.
- Eu não sei o que quer dizer com isso senhorita Teka.
- Toque, Sam. Toque “As time goes by”... Cante Sam.
Corro pelas escadas até ao andar de cima com o coração aos saltos e as pernas a tremer. Procuro desesperadamente o teu olhar, o teu sorriso a tua mão...
Numa mesa, com vista para o mar, está um casal a jantar... bebem Duas Quintas, branco.
De ti... a tua ausência.
“...Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas...”
Tarde demais!
A desilusão toma conta de mim, olho a Lua Cheia, aquela que menos gosto, reflectida no mar, brilhante, segura, provocadora, imponente, misturada com o piano de Sam...
“…Moonlight and love songs
Never out of date…”
Inesperadamente sinto os teus braços na minha cintura e os teus lábios quentes no meu ombro, na minha pele...
Voltaste!
Lembro-me de uma frase que li, “não existe fronteira entre o real e o imaginário”, não num pacote de açúcar!
Os meus olhos encontram os teus, o teu sorriso...
Pegas na minha mão, levas-me pela escada em direcção à porta...
Pelo caminho... Sam, empregado de mesa, carteiro, Chico, taxista, anónimo, sinónimo, fantasma, Leporello... levantam-se à nossa passagem e batem palmas.
“…No matter what the future brings…”
À porta do “Rick´s Aroeira Café” a tua mota, “verdadeiro cavalo alado”...
Com os teus olhos que riem e essa tua voz... convidas.
- Deixa-me, pelo menos hoje, ser eu a conduzir-te...
E fomos...
... à boleia do futuro...
[This day and age we're living in
Gives cause for apprehension
With speed and new invention
And things like fourth dimension.
Yet we get a trifle weary
With Mr. Einstein's theory.
So we must get down to earth at times
Relax relieve the tension
And no matter what the progress
Or what may yet be proved
The simple facts of life are such
They cannot be removed.]
You must remember this
A kiss is just a kiss, a sigh is just a sigh.
The fundamental things apply
As time goes by.
And when two lovers woo
They still say, "I love you."
On that you can rely
No matter what the future brings
As time goes by.
Moonlight and love songs
Never out of date.
Hearts full of passion
Jealousy and hate.
Woman needs man
And man must have his mate
That no one can deny.
It's still the same old story
A fight for love and glory
A case of do or die.
The world will always welcome lovers
As time goes by.
Oh yes, the world will always welcome lovers
As time goes by.
(Herman Hupfeld)
sábado, 4 de agosto de 2007
O NADA, ou o TUDO...
tanto faz!
pois num dado momento,
no exacto momento,
serão, sempre e só,
uma e a mesma coisa.
sendo ambos absolutos
TUDO! NADA!
Confluem
na unidade
e a unidade, como a palavra diz,
é una.
Logo, é indiferente se é tudo, ou...nada.
São a mesma coisa
vista de perspectivas,
momentos históricos ou humanos
diferentes.
Momento único...
Pequena composição poética, que exprime um pensamento fino, lisonjeiro e terno. (...)
Madrigal
Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.
Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu.
Eugénio de Andrade
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Registos muito pessoais...
Tudo não passa de castelos no ar...
Exercícios de escrita...
Histórias construidas, para tornar os dias mais azuis...
Desejos imaterializados...
Desejos sublimados...
Apontamentos sentidos... mais do que vividos...
Porque as pessoas... são o pior e poucas vezes... o melhor do mundo!
Porque nascemos e morremos sós!
Porque há muitos lobos com pele de cordeiro!
se esbocei um sorriso...
se alguém esboçou um sorriso...
se alguém reflectiu...
Se alguém se zangou com o que escrevi...
Se alguém me incentivou a escrever...
Se alguém não passou por aqui indiferente...
Já valeu a pena!
Porque não há príncipes nem princesas...
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
O Café da Aroeira... X
- Vai sair?
- Sim, Hoje vou ver um filme do Ingmar Bergman.
- Sozinho?
- Tenho aqui uma garrafa Monte de Oiro - Madrigal.
- Regressa?
- Há novas e boas propostas. Um restaurante, uma viagem, um Teatro (belíssima ideia). Farei com que esta proposta chegue à Teka, a responsável por este espaço. Sugerirei que convide várias pessoas (nomeadamente o “desabafo” – o proponente desta ideia) para que não seja uma história escrita somente a duas mãos.
- De que é que mais gosta neste espaço?
- Da subtileza, da inteligência, do jogo, do contraditório, da sedução, da escrita, da poesia, da imaginação, da criatividade, da interactividade, dos participantes mais ou menos "anónimos", dos que gostam e dos que não gostam de poesia.
- Há algo de que não goste?
- Sim. Descobri esta manhã que, sem querer, o lema da Teka que encabeça este blogue: "escrever liberta" é muito semelhante a uma frase terrível utilizada pelos Nazis na 2ª guerra mundial. Sei que foi sem querer... mas quando dei por isso fiquei muito incomodado.
- Qual o filme que vai ver?
- "Mónica e o desejo". Um belo filme.
- Não tem por aí uma poesia, uma palavra?
As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal, um incêndio.
Outras, orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
(Eugénio de Andrade)
terça-feira, 31 de julho de 2007
O Café da Aroeira... IX
- Não se passa nada aqui? Há pessoa preocupadas. – pergunto ao empregado do Café
- Que querem? Uma orgia? A entrada de uma prostituta? todas saem e ficam só eles dois? sangue?
- São pessoas que não saboreiam a construção.... Detesto o “Correio da Manhã” mas tolero quem os lê. Têm razão de existir, mas não me peçam para partilhar essa leitura.
- Não percebo onde quer chegar.
- Eu explico. Que diz a placa que está à porta deste Café? “Porque escrever liberta”. É o mote. Significa que os leitores do Correio da Manhã não se devem sentir confortáveis neste espaço.
- E como empregado digo: da mesma forma que a porta está aberta para entrarem, está aberta para saírem. Não obriguem os que estão cá a lerem o “Correio da Manhã”...
- Sublime. Mas o que é que se passa no andar de cima?
- No andar de cima temos um restaurante com vista para o Rio. Está lá um casal a jantar.
- Que estão a beber?
- Duas Quintas, branco.
- Nada mal, melhor seria o Madrigal, mas não está mal. Mais um jogo de sedução?
“E vós que hoje noivais
adivinhai estes instintos
do grupo concertado por apelos
que da natureza vós mesmo
genuinamente recebeis
e o vosso digno destino encoraja!
Bocas unidas braços nus
tacteados seios extenuante sexo
fazei com que a vossa noite de prazer
justamente se cumpra!
Estas coisas ensina-lhes
oh dia de pompa de cio!
Inspira-lhes aqueles pensamentos
que deve provocar a proeza da carne
inevitável natural
como mijar quando o desejo aperta!
Faz com que se beijem se unam
com espontâneo entendimento se ajustem
e deixa que a noite vindo
aquele uso lhes ensine
que para os jovens é o gosto de abusar.
Deixa-os repetir o enlace
e o prazer derramar derramar
até que mais não possam!
im deixa a noite
seu reiterado unir-se no escuro vigiar
até que o pensamento de encandecido
aflija o desgaste
e sobre feridas formas venha o sonho
mastigar os seus nomes e abraçados
com seu amor sonhem ainda
e alguma coisa daí resulte!
E se acordarem
ensina-os a recomeçar
porque o tempo agora é todos deles.
Com júbilo com a angústia do sono enche
suas carnes em escaldante comunhão misturadas
enquanto exaustas as estrelas
no oriente o céu descoram e estremecem
onde a luz a noite desfaz
e com clamor de alegria
e adolescente rumor de vida
o tépido novo dia começa.”
(Fernando Pessoa)
segunda-feira, 30 de julho de 2007
O Café da Aroeira... VIII
De novo na sua Lisboa!
“A viagem, o regresso... são partes do mesmo percurso. O mais interessante é sempre o que ainda falta percorrer.” – li em algum lugar.
Saio do avião que invariavelmente fica a quilómetros do edifício principal e sou obrigada a desempenhar o papel de sardinha em lata durante alguns minutos. Cumpridas as formalidades e a recolha sempre lenta da bagagem, dirijo-me apressada para a rampa das chegadas.
Sinto sempre um frio na barriga quando atravesso esta porta que se abre magicamente à minha passagem.
À minha frente, uma centena de pescoços esticados a olhar na minha direcção. Esboço um sorriso, encolho a barriga, estico o peito, levanto a cabeça e avanço triunfante, é assim que se devem sentir as Misses Praia. Trinta segundos de olhares em mim. E se desta vez um desses olhares fosse realmente para mim?. Varri, como sempre, o meu olhar pela multidão expectante e nada me foi familiar, mais uma vez. De mala na mão, fiz o percurso habitual, directa às partidas, para escapar às filas e aos taxistas maldispostos quando descobrem que sou portuguesa da Silva.
Entrei num táxi de onde saiu um casal com ar de lua-de-mel que tinha a felicidade estampada no rosto. Como são diferentes as partidas e as chegadas!
- Café Aroeira por favor – pedi decidida.
Nem acreditei no que tinha dito, em vez de ir para casa, desfazer a mala, organizar-me...
- Café Aroeira? Respondeu o taxista.
- Sim! Na Aroeira, para os lados da Fonte da Telha.
- Sim eu sei perfeitamente onde é o café Aroeira, acabei de passar por lá – informou o taxista – mas olhe que aquilo por lá está complicado.
- Complicado? No Café Aroeira? Perguntei incrédula.
- Uma multidão, eu até abrandei e perguntei o que se passava porque podia ser um incêndio, ou alguém se ter sentido mal, um “anónimo” respondeu-me que aquilo por lá, hoje não estava para poesias, estava um pessoal irritado à porta e acho que não os queriam deixar entrar.
- Que estranho aquele é um lugar tão pacato.
Intrigada encostei-me e olhei pela janela em busca de um sentido. Um duplo sentido, para aquela confusão e para o impulso que me levara a seguir aquele destino. Tinha saudades, não sabia de quê, seria do café? Tive pena de não ter bebido o meu Nicola à chegada, assim o premonitório pacote de açúcar ter-me-ia dito o que poderia encontrar. Suspirei, pensei se tu estarias lá, olho para o lado e vejo um ramo de 2 antúrios vermelhos esquecidos no banco.
- Estão aqui umas flores – informei surpreendida.
- Ahhh foram aqueles moços que larguei lá no aeroporto, iam para as Maldivas, acho que não lhes vai fazer falta hehe – respondeu o homem dando uma gargalhada – olhe fique com elas.
Peguei nos 2 antúrios cuidadosamente, eram lindos, toquei-lhes ao de leve e admirei a sua cor intensa o seu aspecto resistente e delicado, uma verdadeira maravilha da natureza. Antúrio, sem dúvida alguma, a minha flor preferida. Seria um sinal? De quê?
Revi mentalmente o que iria fazer ao Café com um ramo de antúrios e uma mala na mão. Pareceria estranho. Daria a desculpa do livro, mas quem se preocupa com um livro daqueles? Na realidade porque é que morando em Lisboa e vindo de fora eu faria escala no Café da Aroeira?
- Chegámos, parece que as coisas acalmaram – disse o taxista.
Saí do táxi com as mãos ocupadas e com o coração a bater mais forte. Caminho em direcção à porta e percebo um grande reboliço lá dentro, vejo sair o Chico pela porta (o Buarque!) seguido imediatamente por um homem que caminha desgovernado na minha direcção envolto numa capa comprida. Sem me ver, esbarra comigo e algo cai ao chão. Apressadamente e sem me pedir desculpa apanha um catálogo de capa preta e segue o seu caminho. Mas era Leporello o criado de D. Giovanni! Estarei a sonhar? Cada vez percebo menos!
Entro no café onde dois grupos de pessoas olham para... para... ti?
Sento-me incrédula, pouso os meus antúrios vermelhos e vejo a cereja em cima do bolo, desta cena teatral, neste caso em cima da mesa. Tu, do alto da tua mesa discursavas assertivamente sobre qualquer coisa que não entendi. Falavas em metas, trajectórias, prazer, egoísmo. Parecias zangado mas o silêncio à tua volta era total.
Não consegui tirar os olhos de ti, eras um verdadeiro líder, um vencedor, argumentavas e as pessoas olhavam-te com respeito, até que dispersaram.
Quando desceste da mesa com um ar visivelmente satisfeito, os nossos olhos encontraram-se. Eu não consegui fugir com os meus e o meu pensamento seguia a mil, adivinhando o próximo passo. Brindaste-me com um belo sorriso e insististe no olhar. Apeteceu-me levantar e dizer... dizer... o quê? O que se diz numa situação destas?
Uma mulher toca-me de repente no ombro.
- Teka, ó filha, tu és a Teka não és? Ó filha ainda bem que te encontro. Posso sentar-me aqui contigo? – disse a mulher que estava visivelmente entusiasmada e foi-se sentando.
Não queria acreditar.
- Ó filha temos muito que conversar, o meu nome é Estrelita. Tu vê lá o que me fazes à vida, à tua e à minha. Gostas de caracóis, gostas? Vamos aqui comer uma pratada e conversar de mulher para mulher, tá bem filha? Há coisas que tu tens que saber, para não fazer um disparate – gritava ela ao meu ouvido.
Não queria acreditar, de novo.
Quem é esta? Também há caracóis no Café da Aroeira? Estou aqui a comer caracóis com esta mulher louca?
Procurei-te pelo café, quis encontrar os teus olhos, quis que saltasses para cima da minha mesa e expulsasses aquela mulher que insistia em deitar as cascas dos caracóis vazias, de novo para o prato e falava sem parar coisas que eu não entendia.
Vi que te tinhas virado para o empregado e conversavam.
Nada a fazer... agora é esperar que ela se canse!
Logo vi... noites de Lua Cheia!
ELE
Porque não fala com os outros? Pergunta-me o empregado do Rick´s Café Aroeira.
- Falo contigo, com o carteiro, com o maestro, enfim falo com todos! – respondi sorrindo.
Percebi perfeitamente a pergunta, mas que responder? Porque será que as pessoas querem respostas rápidas? e não “alimentam a dúvida” como catalisador de novas ideias, novas vivências? e querem conclusões, e não estudam, e não analisam, e nem sequer têm tempo para sentir, e...
Necessito ganhar tempo para articular a resposta. Como explicar que não posso ter um discurso directo com pessoas que existem sem que as respostas sejam das próprias?
- Em muitos diálogos... as palavras são dispensáveis – arrisquei.
- É um bom argumento... E porque será que os “outros” não estão aqui no Café?
- Não é verdade, estão todos cá. Olha para as mesas. Naquele canto a “Estrelita” na outra mesa uma “evidência” mesmo ao lado do “pairando”. E há muitos mais: “anónimos”, “sinónimos”, muita “curiosidade” e muitos mais, inclusive “fantasmas”...
- Fantasmas? fantasmas verdadeiros?
- Sim, da casa encarnada...
Tomando formas, diversas formas.
Brincam, dançam, riem de mim,
Desafiam meus medos.
Eles sabem todos os meus segredos,
Acendem as luzes dos meus becos.
E o que deixa minha consciência mais pasma
E não saber, onde começa o homem,
E onde termina o fantasma.
(Tonho França)
- Mas falta uma pessoa.
- O fantasma? – perguntei.
- Estava a pensar no “2 em 1”, mas nem sei se ele não será mesmo um fantasma...
- O 2 em1 é diferente. Não te esqueças que ficamos a meio de uma conversa. Quem será esse personagem que se chama 2em1? Muito assertivo, muito prático... até parece um engenheiro.... Se o “evidência” perguntou “quando é que o correio chegava”... pode ser que seja um sinal. Será que ele trabalha nos Correios?
- Senhor carteiro! Conhece lá nos Correios um engenheiro chamado “2 em 1”?
- Com esse nome não, mas lá há muitos e para todos os gostos...
- Ficamos com a dúvida. Pode ser que ele apareça um dia. Espero que traga uma garrafa de vinho ainda melhor que as suas muito boas propostas... por exemplo... “Barca Velha 99”
- Barca Velha? Que tipo de comida para este vinho? Carne, provavelmente?
- Caro amigo, estás a ficar conservador demais para o meu gosto... és um convencional: branco para peixe, tinto para carne... Com Barca Velha devemos comer simplesmente... queijo, presunto ou algo semelhante, porque, neste caso, o importante... é o vinho.
- E a mota, e a mota? Porque prefere a mota ao cavalo do Luky Luke?
- Lembras-te do filme “Diário de uma Viagem” com o Che atravessando a América do Sul? Achas que teria o mesmo encanto se tivessem ido de cavalo...
- Parece-me que os seus exemplos são muito cinematográficos... o senhor vive? Existe? Ou serão somente imagens?
- Não existe fronteira entre o real e o imaginário. Se alguém anda à procura de respostas exactas e rápidas... que vá a uma loja de “pronto a vestir”. Prefiro “fatos à medida”.
- Vai saborear a “lua cheia”? Pergunta, com ternura, o empregado do Café.
domingo, 29 de julho de 2007
O Café Aroeira... VII
Um ruído vindo do exterior do Café interrompeu a conversa sobre a eventual identidade do “Champô”.
- Temos uma manifestação à porta – disse um “anónimo” que entrou no Café.
- E depois? – pergunta o empregado. Aqui na Aroeira somos democratas. Podem manifestar-se à vontade.
- Mas a manifestação é contra este Café.
O empregado ficou perturbado.
- O quê? Que mal fizemos? O diálogo é sempre uma boa solução. As “palavras ainda não estão gastas”. Não será possível declamar poesia para os manifestantes?
- “Isto” não vai com poesia – afirma categórico um “anónimo” manifestante que entrou no café.
- Que querem? Pergunta o empregado
- Várias coisas. Aqui está o nosso caderno reivindicativo:
b) que ele fale directamente com a Teka, enfim que façam o que entenderem, se toquem, se beijem, dancem, mas que façam!
Não sabia onde me haveria de meter... mas em silêncio não ficarei. Sei que a “ausência de uma decisão é uma decisão”. Levantei-me e disse:
- Quero dizer...
Fui interrompido por uma contramanifestação:
- “Não queremos que vocês se conheçam”! – gritavam outros manifestantes. O nosso caderno reivindicativo és:
a) não queremos saber quem tu és
Momento superior, pensei. A contradição, a dúvida, referida várias vezes pela Teka, estava na rua.
Sorri.
Melhor ainda: “a poesia está na rua” (cartaz da Viera da Silva a propósito do 25 de Abril).
- Posso falar? - perguntei levantando a voz.
Fez-se silêncio.
Pensei que estava nos anos setenta. Saltei para cima de uma mesa e discursei:
- Não pactuo com posições incorrectas, não aceito soluções simples e superficiais. Querem que eu e a Teka falemos? Porquê? Não gostam da dúvida? Não gostam do desejo? Confundem o trajecto com a meta? Se é isso que querem de mim... não contem comigo.
- E vocês – continuei olhando para a outra manifestação – querem que não nos falemos? Porquê? Porque o vosso sentimento egoísta faz com que só pensem em vocês. E nós? Não temos direito ao prazer?
Fez-se um enorme silêncio. Percebi que os meus argumentos estavam a desmobilizar as manifestações. Os manifestantes abandonaram a sala.
- Para quem se dizia tímido... portou-se muito bem – disse-me o empregado do Café
Ainda disse:
- Maestro, por favor. Gostava de ouvir “Let´s Do It, Lett´s Fall in Love” – Cole Porter
Ao descer da mesa reparei que estavas no teu cantinho preferido.
Desta vez não baixei os olhos. Sorri e senti um brilho nos teus olhos.
Na tua mesa... antúrios vermelhos.

sábado, 28 de julho de 2007
O Café Aroeira... VI
O empregado do Café Rick´s Aroeira Café olha atentamente para mim, como se quisesse descobrir algo e pergunta de chofre:
- Porque não se levanta e vai falar com a nossa cliente que costuma estar sentada naquela mesa?
- Não percebo. Acha que é isso que eu desejo?
- Sim, E penso que é um sentimento comum aos dois.
- E se eu lhe disser que sou tímido, acredita?
- Claro que não, mas pode continuar a dizer e principalmente poderá continuar a pensar.
- Mas sou! E vou provar-lhe: não sei o que dizer, nem como dizer, nada. E se lá estivesse, provavelmente coraria... Escrever é muito mais simples
- Já o “champô” dizia isso...
- Dois em um, amaciador ou outra coisa qualquer é um assunto encerrado!
Senta-se o maestro na nossa mesa e afirma:
- Porque não tenta um tango. A minha orquestra poderá acompanha-lo. Quer um exemplo?
Lo que es morir mil veces
De ansiedad
No podrás nunca entender
Lo que es amar y aloquecer.
Tus labios que quemas,
Tus ojos que embriagan
Y que torturan mi razón...
Sed que me hace arder
Y que me enciende el pecho de pasión.
Estás clavada en mí,
Te siento latir
Abrasador de mis sienes,
Te adoro quando estás y
Te amo mucho más
cuando estás lejos de mi”
- Serve? – pergunta o maestro. Chama-se “Pasional”
- Não. Não gosto de: “te amo mucho más cuando estás lejos de mi”
- E não quer enviar uma carta – interrompe o carteiro
- Já disse, tal como o Pessoa afirmou para a sua querida Ofélia: “todas as cartas de amor são ridículas”
- Quer um exemplo? – pergunta-me o carteiro. Nas cartas de amor da Soror Mariana ela afirma: “Ignoro por que motivo te escrevo...”
- Mais outra que tem dúvidas – comento
- Temos que encantar uma solução – afirma um estranho que entrou nesse momento no café.
- Quem é você? – perguntamos todos em uníssono
- Ninguém!
- Frei Luís de Sousa? – perguntamos todos quase ao mesmo tempo.
- Não, António Silva vendedor ambulante. Estava a dizer... “ninguém” deixa de comprar os meus produtos. Mas vocês não deixaram que eu acabasse a frase.
- E então, que produtos vende?
- Um pouco de tudo, mas verdadeiramente sou especialista em champôs.
- Todos nos rimos às gargalhadas deixando o vendedor de boca aberta não percebendo a razão de tanto riso.
- Disse algo de errado?
- Não, nada disso, Se é especialista em champôs fale-nos um pouco da fórmula “dois em um”
- Temos duas variante: ou dois produtos diferentes num só... ou um produto com duas características. Temos várias marcas. Querem ver?
- Não! Dissemos todos quase ao mesmo tempo...
- E no nosso caso que será? – pergunto eu
- Para mim, diz o carteiro, preferia duas pessoas .- assim ao menos eram dois clientes... que são os que tenho.
- Na música apostamos na outra versão – Vinícius tem um samba com duas notas...
- Temos que acabar com este mistério. Penso que o “Champô” é um de nós. Provavelmente o Carteiro, Não será você?
- Eu não, mas poderia ser o meu cliente... Pablo Neruda
- Esse não pode ser – afirmei
- Porquê? - perguntaram todos?
- Neruda não escreve assim!
Convencidos perguntaram
- E então quem será?
Todos se viraram para o empregado do Café
- Você?
- Estou sempre aqui próximo dos meus clientes. Não tenho acesso a essas modernices. Ainda trabalho com uma “caixa registadora manual”...
Reparei em vários olhares inquisidores que se viravam para mim...
- Não será você?
“Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.
(Álvaro de Campos)
O Café Aroeira... V
- Aqui há uma certa dificuldade em distinguir o sonho da realidade - afirmo para o empregado do café Rick´s Aroeira Café
- É um problema comum a muitos dos meus Clientes. Haverá interesse em os distinguir? E porque esta questão agora neste momento?
- Será que dancei mesmo? o Chico esteve aqui a cantar? haverá uma orquestra? e o Café, é fruto da imaginação?
- Saboreie, saboreie a vida. Onde é que eu terei lido isto?
- Provavelmente num pacote de açúcar, DELTA, claro!
- Regressando à sua questão, caro cliente, porquê preocupado em separar a realidade do imaginário?
- Estive atento a um novo cliente deste café, que se meteu comigo.
- É um dos lemas deste Café. A criatividade ao poder e liberdade com responsabilidade - outra frase feita. Esta não devo ter lido num pacote de açúcar...
- Estava a dizer que se tinham metido comigo. E como respondo às provocações... não deixo de continuara a falar entre o real e virtual. Ele afirmou que eu me refugio no virtual e que fujo da realidade. (disse "não fugas, mas penso que provavelmente quereria dizer: "não fujas"...)
- E então?
- Reconheço que ele deve ter alguma razão, mas tenho que me defender.
- Defender de quê? e porquê? Será que ele afirmou algo que não seja verdade?
- A verdade é como os champô´s... "dois em um"...
- Ah, Ah, Ah. Essa é que verdadeiramente não é uma frase com açúcar... e quem será o "amaciador"?
- Essa é uma boa piada. A "criatividade é uma semente que deve ser regada".
- Mas há vários sinais interessantes...a fuga? o virtual, o primeiro beijo, o romance a duas mãos (gostei)... e porque será que refere uma mota?
- Prefere uma mota ou o cavalo do Luky Luke?
- O Luky Luke não tem lá muita piada...no fim das histórias ele fica sempre sozinho com o cavalo... não me seduz lá muito. A mota poderá ser que seja um pouco diferente... cavalo alado com destino às estrelas... Pode ser um bom princípio de uma nova história. Maestro, por favor.
- Chamou-me? - pergunta o maestro aproximando-se da nossa mesa.
- Como foi possível a sua banda, que é de Jazz, ter acompanhado o Chico Buarque?
- Tenho imenso prazer em acompanhar o Chico Buarque tal como o Caetano Veloso.
- De facto "de longe somos todos normais"...
- A nossa orquestra transpira "música por todos os poros". É um prazer tocar neste Café.
- E uma ária de uma ópera? Também se pode tocar aqui?
- Tudo é possível neste Café. Alguma ópera em especial?
- A Flauta Mágica de Mozart.
- Fiquei intrigado – comenta o empregado do Café. Se ele se meteu consigo com a ária “Catálogo” do D. Giovanni porque pediu para tocar a “Flauta Mágica”?
- Não sabe a história desta ópera?. Há uma princesa sequestrada, há um príncipe e um caçador de pássaros que tomam a missão de a libertar. Depois de vários episódios mais ou menos atribulados com flautas e carrilhões mágicos tudo acaba em bem “casaram e foram felizes”. Apetece-me histórias com um fim feliz.
- Não me parece seu. Parece uma história tipo “cor de rosa” – diz o empregado perfeitamente admirado. Afinal não conhecia o seu cliente.
- Conhece a história do D. Giovanni? É uma desgraça. A música é muito bonita, mas “poupem-me”. Estou cansado de sofrer...
- Surpresa total – diz o empregado. Este Café virou consultório de Psicanalista
- Nada disso... Posso pedir-lhe um Gin Tónico?
- Gordon´s?
- Claro, isso nem se pergunta.
Com este pedido momentaneamente ganhei “espaço” para poder respirar.
A história do Champô “dois em um” tinha-me perturbado. Quem será? Diz que não nos conhece... mas não acredito.
“Só brinca quem sabe” – não foi retirado de um pacote de açúcar... mas poderia ter sido.
- Olá, bom dia –Era o carteiro, sempre simpático.
- Ainda bem que o encontro. Tem que me ajudar.
- Onde se vendem Champôs?
- Não posso acreditar. Este é mesmo um espaço aberto onde não há segredos.
- Não, obrigado. Onde fica o Café “Alfredo”? Só conheço um em Linda a Velha, mas parece-me que não deve ser esse.
- Sabe o Código Postal?
- Claro que não, se soubesse era “meio caminho andado”
- Então nada feito... mas vou tentar averiguar.
Quando for grande vou ser
Quero ser um realejo
Ter um pedaço de terra
Fogo que salta ao braseiro
Dormir no fundo da serra
Quero ser um realejo
Carteiro em bicicleta
Leva recados de amor
Vem o sono com a música
Ao som do realejo”
João Afonso






















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