sexta-feira, 13 de julho de 2007

História a duas mãos...

E foi numa noite de Verão como esta, cheguei a casa como hoje, exausta, transpirada e esfomeada, engoli qualquer coisa e conectei-me ao mundo para não ouvir o silêncio.
Ele deu o mote, daquele seu jeito pouco convencional de ser, qual D. Sebastião, real, mas sempre numa névoa envolto. Aceitei o desafio e dedilhei freneticamente impressões sentidas.
Hoje, como naquele dia, lá para trás, em que o acaso nos cruzou, penso nos vários conceitos de amizade...
Do meu baú, em tua honra e destes últimos anos, sai esta história a duas mãos escrita, como se te conhecesse, como se fosse tua amiga e como se gostasse de ti...

O marquês de Brah envergara a armadura sem sentir um peso no coração. “Estranho”, reflectiu, num resquício de consciência pesada, “devia ver o sangue ao espirrar...”
Montou no cavalo que fora do seu pai e de seu avô e partiu, à frente da horda desonesta, para mais uma cruzada campestre. “À carga, meus bravos cavaleiros”, bradava de cinco em cinco riachos atravessados, na floresta enevoada e lenta.
“À carga de porrada responderemos com a nomeação democrática de um novo bispo que nos benza”.
Era uma atitude política! Verdadeiro estado moderno. Afinal estávamos em 1040... “viva purtucale!!!” gritou uma vez mais, feliz de se ter inventado tão bravo; e continuou, “heróis do mar nobre povo nação valente e imortal lalalala” .
Portugal! Portugal!
À sua frente um grupo gritava desafinado, “levantai hoje de novo...” esfregou os olhos, tonto, tentou focar, a sua mão ensanguentada deu sinal de vida. À sua volta buzinas, panos verdes e vermelhos, caras pintalgadas, manchas laranjas, cânticos estranhos, vidros partidos, homens de negro empunhando bastões, protegidos por viseiras.
Gosto amargo de boca, garganta seca. Num gesto automático bebericou a sua loira de litro, agora quente e mole. Alguém o ajudou a levantar-se dando-lhe uma palmadinha nas costas: “então rapaz!”
Tentou equilibrar-se, “afinal 1040, 2004, 2104 tanto faz...”. Empunhou a bandeira, seguiu o seu caminho e por mais umas horas esqueceu a sua vida, “... contra os canhões marchar! Marchar!!”.

4 comentários:

anónimo previsível disse...

foi;
engoli;
conectei-me;
deu;
dedilhei;
naquele dia;
lá para trás;
do meu baú;
últimos anos...DO PASSADO, NO PASSADO, PASSADOS, ULTRAPASSADOS!!!!

E O PRESENTE??????????????????

Antó(nimo) disse...

Sobre as noites:
“Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levarmos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
A mais longínqua onda do seu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nos fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil”

Natália Correia (Há noites)

Na escolha entre o passado e o presente, melhor será... uma viagem ao futuro

“Levas-me a cavalo. Somos uma ideia de estar galopando.
Não existe o barco. Somos passageiros à força de remos.
Temos a idade das aves que seguem por seguir no bando
O nosso país é ir tão depressa que nunca o veremos.”
Natália Correia (Passaporte)

Teka disse...

Ao Antóni(mo)
que surge devagar, do ar, sem avisar e que tanto nos faz pensar...

Palavras belíssimas da nossa Natália que teriam muito que comentar...

A noite vai longa...
os neurónios reclamam...
a inspiração foge...
As ideias teimam em não se encadear.

Mas uma frase eu queria deixar...
Brindo ao futuro, às viagens sempre (as da mente e as outras)

Viajarei no futuro, aproveitando o passado e saltando o presente.

E agora vou com as estrelas...
Bem haja!

Teka disse...

Ao Anónimo previsível...

“Se

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.”

Sophia.