segunda-feira, 30 de julho de 2007

O Café da Aroeira... VIII

ELA (numa fase pouco produtiva)
De novo na sua Lisboa!
“A viagem, o regresso... são partes do mesmo percurso. O mais interessante é sempre o que ainda falta percorrer.” – li em algum lugar.
Saio do avião que invariavelmente fica a quilómetros do edifício principal e sou obrigada a desempenhar o papel de sardinha em lata durante alguns minutos. Cumpridas as formalidades e a recolha sempre lenta da bagagem, dirijo-me apressada para a rampa das chegadas.
Sinto sempre um frio na barriga quando atravesso esta porta que se abre magicamente à minha passagem.
À minha frente, uma centena de pescoços esticados a olhar na minha direcção. Esboço um sorriso, encolho a barriga, estico o peito, levanto a cabeça e avanço triunfante, é assim que se devem sentir as Misses Praia. Trinta segundos de olhares em mim. E se desta vez um desses olhares fosse realmente para mim?. Varri, como sempre, o meu olhar pela multidão expectante e nada me foi familiar, mais uma vez. De mala na mão, fiz o percurso habitual, directa às partidas, para escapar às filas e aos taxistas maldispostos quando descobrem que sou portuguesa da Silva.
Entrei num táxi de onde saiu um casal com ar de lua-de-mel que tinha a felicidade estampada no rosto. Como são diferentes as partidas e as chegadas!
- Café Aroeira por favor – pedi decidida.
Nem acreditei no que tinha dito, em vez de ir para casa, desfazer a mala, organizar-me...
- Café Aroeira? Respondeu o taxista.
- Sim! Na Aroeira, para os lados da Fonte da Telha.
- Sim eu sei perfeitamente onde é o café Aroeira, acabei de passar por lá – informou o taxista – mas olhe que aquilo por lá está complicado.
- Complicado? No Café Aroeira? Perguntei incrédula.
- Uma multidão, eu até abrandei e perguntei o que se passava porque podia ser um incêndio, ou alguém se ter sentido mal, um “anónimo” respondeu-me que aquilo por lá, hoje não estava para poesias, estava um pessoal irritado à porta e acho que não os queriam deixar entrar.
- Que estranho aquele é um lugar tão pacato.
Intrigada encostei-me e olhei pela janela em busca de um sentido. Um duplo sentido, para aquela confusão e para o impulso que me levara a seguir aquele destino. Tinha saudades, não sabia de quê, seria do café? Tive pena de não ter bebido o meu Nicola à chegada, assim o premonitório pacote de açúcar ter-me-ia dito o que poderia encontrar. Suspirei, pensei se tu estarias lá, olho para o lado e vejo um ramo de 2 antúrios vermelhos esquecidos no banco.
- Estão aqui umas flores – informei surpreendida.
- Ahhh foram aqueles moços que larguei lá no aeroporto, iam para as Maldivas, acho que não lhes vai fazer falta hehe – respondeu o homem dando uma gargalhada – olhe fique com elas.
Peguei nos 2 antúrios cuidadosamente, eram lindos, toquei-lhes ao de leve e admirei a sua cor intensa o seu aspecto resistente e delicado, uma verdadeira maravilha da natureza. Antúrio, sem dúvida alguma, a minha flor preferida. Seria um sinal? De quê?
Revi mentalmente o que iria fazer ao Café com um ramo de antúrios e uma mala na mão. Pareceria estranho. Daria a desculpa do livro, mas quem se preocupa com um livro daqueles? Na realidade porque é que morando em Lisboa e vindo de fora eu faria escala no Café da Aroeira?
- Chegámos, parece que as coisas acalmaram – disse o taxista.
Saí do táxi com as mãos ocupadas e com o coração a bater mais forte. Caminho em direcção à porta e percebo um grande reboliço lá dentro, vejo sair o Chico pela porta (o Buarque!) seguido imediatamente por um homem que caminha desgovernado na minha direcção envolto numa capa comprida. Sem me ver, esbarra comigo e algo cai ao chão. Apressadamente e sem me pedir desculpa apanha um catálogo de capa preta e segue o seu caminho. Mas era Leporello o criado de D. Giovanni! Estarei a sonhar? Cada vez percebo menos!
Entro no café onde dois grupos de pessoas olham para... para... ti?
Sento-me incrédula, pouso os meus antúrios vermelhos e vejo a cereja em cima do bolo, desta cena teatral, neste caso em cima da mesa. Tu, do alto da tua mesa discursavas assertivamente sobre qualquer coisa que não entendi. Falavas em metas, trajectórias, prazer, egoísmo. Parecias zangado mas o silêncio à tua volta era total.
Não consegui tirar os olhos de ti, eras um verdadeiro líder, um vencedor, argumentavas e as pessoas olhavam-te com respeito, até que dispersaram.
Quando desceste da mesa com um ar visivelmente satisfeito, os nossos olhos encontraram-se. Eu não consegui fugir com os meus e o meu pensamento seguia a mil, adivinhando o próximo passo. Brindaste-me com um belo sorriso e insististe no olhar. Apeteceu-me levantar e dizer... dizer... o quê? O que se diz numa situação destas?
Uma mulher toca-me de repente no ombro.
- Teka, ó filha, tu és a Teka não és? Ó filha ainda bem que te encontro. Posso sentar-me aqui contigo? – disse a mulher que estava visivelmente entusiasmada e foi-se sentando.
Não queria acreditar.
- Ó filha temos muito que conversar, o meu nome é Estrelita. Tu vê lá o que me fazes à vida, à tua e à minha. Gostas de caracóis, gostas? Vamos aqui comer uma pratada e conversar de mulher para mulher, tá bem filha? Há coisas que tu tens que saber, para não fazer um disparate – gritava ela ao meu ouvido.
Não queria acreditar, de novo.
Quem é esta? Também há caracóis no Café da Aroeira? Estou aqui a comer caracóis com esta mulher louca?
Procurei-te pelo café, quis encontrar os teus olhos, quis que saltasses para cima da minha mesa e expulsasses aquela mulher que insistia em deitar as cascas dos caracóis vazias, de novo para o prato e falava sem parar coisas que eu não entendia.
Vi que te tinhas virado para o empregado e conversavam.
Nada a fazer... agora é esperar que ela se canse!
Logo vi... noites de Lua Cheia!


ELE
Porque não fala com os outros? Pergunta-me o empregado do Rick´s Café Aroeira.
- Falo contigo, com o carteiro, com o maestro, enfim falo com todos! – respondi sorrindo.
Percebi perfeitamente a pergunta, mas que responder? Porque será que as pessoas querem respostas rápidas? e não “alimentam a dúvida” como catalisador de novas ideias, novas vivências? e querem conclusões, e não estudam, e não analisam, e nem sequer têm tempo para sentir, e...
Necessito ganhar tempo para articular a resposta. Como explicar que não posso ter um discurso directo com pessoas que existem sem que as respostas sejam das próprias?
- Em muitos diálogos... as palavras são dispensáveis – arrisquei.
- É um bom argumento... E porque será que os “outros” não estão aqui no Café?
- Não é verdade, estão todos cá. Olha para as mesas. Naquele canto a “Estrelita” na outra mesa uma “evidência” mesmo ao lado do “pairando”. E há muitos mais: “anónimos”, “sinónimos”, muita “curiosidade” e muitos mais, inclusive “fantasmas”...
- Fantasmas? fantasmas verdadeiros?
- Sim, da casa encarnada...
“Vejo meus fantasmas
Tomando formas, diversas formas.
Brincam, dançam, riem de mim,
Desafiam meus medos.
Eles sabem todos os meus segredos,
Acendem as luzes dos meus becos.
E o que deixa minha consciência mais pasma
E não saber, onde começa o homem,
E onde termina o fantasma.
(Tonho França)

- Mas falta uma pessoa.
- O fantasma? – perguntei.
- Estava a pensar no “2 em 1”, mas nem sei se ele não será mesmo um fantasma...
- O 2 em1 é diferente. Não te esqueças que ficamos a meio de uma conversa. Quem será esse personagem que se chama 2em1? Muito assertivo, muito prático... até parece um engenheiro.... Se o “evidência” perguntou “quando é que o correio chegava”... pode ser que seja um sinal. Será que ele trabalha nos Correios?
- Senhor carteiro! Conhece lá nos Correios um engenheiro chamado “2 em 1”?
- Com esse nome não, mas lá há muitos e para todos os gostos...
- Ficamos com a dúvida. Pode ser que ele apareça um dia. Espero que traga uma garrafa de vinho ainda melhor que as suas muito boas propostas... por exemplo... “Barca Velha 99”
- Barca Velha? Que tipo de comida para este vinho? Carne, provavelmente?
- Caro amigo, estás a ficar conservador demais para o meu gosto... és um convencional: branco para peixe, tinto para carne... Com Barca Velha devemos comer simplesmente... queijo, presunto ou algo semelhante, porque, neste caso, o importante... é o vinho.
- E a mota, e a mota? Porque prefere a mota ao cavalo do Luky Luke?
- Lembras-te do filme “Diário de uma Viagem” com o Che atravessando a América do Sul? Achas que teria o mesmo encanto se tivessem ido de cavalo...
- Parece-me que os seus exemplos são muito cinematográficos... o senhor vive? Existe? Ou serão somente imagens?
- Não existe fronteira entre o real e o imaginário. Se alguém anda à procura de respostas exactas e rápidas... que vá a uma loja de “pronto a vestir”. Prefiro “fatos à medida”.
- Vai saborear a “lua cheia”? Pergunta, com ternura, o empregado do Café.
- Há quem diga que é a “lua” que “menos gosta”.

6 comentários:

leitor disse...

Já repararam como toda esta história, todo este romance muito respeitavel e legíttimo, sem no entanto o ser (romance), mudaria de "discursos" se em vez de Rick's Café Aroeira, o "sítio", virtual ou verdadeiro, se apelidasse de "Rik's Descafeínado Aroeira".

Seria tudo tão mais light...

Perceberam?
Ainda bem!

Parabéns pelos exercícios de escrita,muito interessantes e diferenciados, inequivocamente com muito sentido(?) e conteúdo, mas enfadonhamente cansativos...desgastantes.

Ninguém aguenta um esticar de corda tão prolongado...

Parece,de facto, uma pescadinha de rabo na boca.

É a minha modesta opinião/contribuição,contudo, sincera , ainda que conscientemente saiba... dispensável.

Anónimo disse...

Bom divertimento.

Anónimo disse...

Já assistiram algum episódio das Chiquititas!?..Please, marquem um encontro ...Bem hajam....e Boa Sorte!

Anónimo disse...

...e por favor, sejam inovadores, e não se "encontrem" nesse chato café onde "nada" acontece,de facto.

2em1 disse...

Este espaço da nossa amiga Teka é também, e principalmente, um espaço de cultura. A história do Café passa, e principalmente, pelo prazer da leitura, pelo prazer da cultura. É um espaço de liberdade onde todas as desculpas servem para escolher um poeta, para realçar um poema e para escrever.
A história não conta, não é importante. Aqui, tal como em outras situações, o embrulho é MUITO MENOS importante que o conteúdo.
Há que nos concentrar principalmente nos poetas. Há muitos e bons. Descubram estes e outros!. Leiam!!!
Assim sendo e no dia que aqui é publicado um belo poema de Fernando Pessoa (não deixem de ler o resto, pois é muito, muito bonito – faz parte dos poemas ingleses do Pessoa e neste caso com uma tradução da Natália Correia) não quero deixar de referir a morte de um homem importante: Ingmar Bergman,
Durante anos este sueco acompanhou-me. Desde os longínquos “7º selo”, “Morangos Silvestres”, “A Máscara”, “Sonata de Outono”, etc. etc. até ao último “Saraband” são TODOS obras de arte.
Nos seus filmes as mulheres sempre foram muito bem tratadas. Sublime a forma como foram filmadas. "São mulheres com desejo, modernas e angustiadas”. Entre várias realço Liv Ullmann.
Para quem quer ver ou rever há vários filmes nas lojas de especialidade.
Destaco "Mónica e o Desejo" (1952). Hoje vou rever este filme.

desabafo disse...

Se me permite, concordo consigo ,sem dúvida,apenas sou um dos que me "cansei" da história do "Cafe Aroeira". Mas respeito, e desejo que o SONHO se prolongue.

P.S. Já agora, Teka e antónimo,por favor, continuem, mas mudem só um pouco a história,mudem para restaurante, ou para Teatro, qualquer coisa diferente,sem empregados, nem carteiros, uma viagem dos dois por exemplo, imaginem-se a viajar juntos, partilhando.